O “Titanic” da Educação Portuguesa: Música no salão enquanto o casco rasga o futuro
Há momentos na História em que as sociedades caminham serenamente em direção ao abismo. Não por falta de avisos, mas porque aprenderam a conviver com eles. Os grandes naufrágios começam raramente com estrondo; começam com pequenas fissuras ignoradas, sinais sucessivamente desvalorizados e a convicção de que, apesar de tudo, nada de essencial acontecerá. Foi assim com o Titanic. Talvez seja assim que estamos a assistir ao lento afundamento da Educação em Portugal e, com ela, de uma certa ideia de humanidade.
À superfície, tudo parece indicar progresso. Nunca tivemos tantas escolas equipadas, tantos recursos digitais, tantas plataformas, diagnósticos e reformas. Nunca foi tão fácil aceder ao conhecimento. Contudo, por detrás desta aparência eficiente, acumulam-se sintomas inquietantes: professores exaustos, alunos emocionalmente mais frágeis, famílias esmagadas por ritmos laborais desumanos e uma escola obrigada a resolver problemas que a sociedade já não consegue enfrentar fora dos seus muros.
A metáfora do Titanic é pertinente, porque o desastre não resultou da ausência de informação. Havia avisos. Havia relatórios. O que falhou foi a crença quase religiosa na invulnerabilidade da técnica. A inovação substituiu a prudência. O fascínio pela engenharia eclipsou a sabedoria. Também hoje parecemos acreditar que mais tecnologia significa automaticamente mais humanidade, que mais conectividade produz mais proximidade e que mais informação gera cidadãos mais esclarecidos. Os sinais apontam precisamente na direção oposta.
Edgar Morin alertou durante décadas para a fragmentação do conhecimento. Conhecemos cada vez melhor as partes, mas compreendemos cada vez pior o todo. A crise da Educação revela essa incapacidade de pensamento complexo. Discutimos exames sem discutir cultura. Reformamos currículos sem perguntar para que educamos. Introduzimos Inteligência Artificial sem refletir sobre as suas implicações éticas. Avaliamos resultados sem questionar que tipo de cidadãos desejamos formar.
Em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Morin defendia que a missão da escola deveria ser ensinar a condição humana antes da adaptação ao mercado. No entanto, a educação parece cada vez mais submetida a uma lógica tecnocrática, onde a inteligência se mede por indicadores, a curiosidade por métricas e a........
