O lado certo da História? Quando a guerra de um só homem arrasta o mundo inteiro
A ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão abriu um ciclo de violência que ameaça incendiar o Médio Oriente e desestabilizar o planeta. Entre aliados perplexos, críticas inéditas vindas do Golfo e uma Europa dividida, a pergunta impõe‑se: como pôde a insanidade política de um Presidente americano comprometer a paz global — e por que é que Portugal se manteve em silêncio?
O Médio Oriente em Chamas — e o Mundo em Suspenso
A operação conjunta lançada pelos EUA e por Israel atingiu dezenas de localidades iranianas, provocando centenas de mortos e levando o Irão a retaliar com mísseis contra bases norte‑americanas no Bahrein, no Catar, no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos, numa das escaladas militares mais rápidas e perigosas das últimas décadas. Segundo responsáveis militares norte‑americanos, foram destruídos mais de duzentos alvos em 72 horas, numa “nova fase” da guerra que visa desmantelar as capacidades balísticas e governamentais de Teerão.
A resposta iraniana transformou a região num campo de batalha imprevisível, com impactos globais no preço da energia, nas cadeias logísticas e na segurança internacional. E tudo isto ocorre enquanto Donald Trump insiste que está a “defender o povo americano” e a “libertar o povo iraniano” — afirmações que contrastam com a brutalidade dos factos e com a suspeita de que a guerra serve também objetivos políticos internos, desde o abafamento do caso Epstein até à consolidação de uma narrativa de força presidencial.
A Carta que Atravessou o Golfo como um Sismo Político
Num gesto sem precedentes, o bilionário dos EAU, Khalaf Ahmad Al Habtoor, publicou uma carta aberta que se tornou viral e que expôs a insatisfação dos próprios aliados árabes de Washington. Perguntou a Donald Trump: “Quem lhe deu permissão para transformar a nossa região num campo de batalha?” e “Quem lhe deu autoridade para arrastar a nossa região para uma guerra com o Irão?”
Al Habtoor denuncia que os EUA e Israel desencadearam esta guerra “antes da tinta secar” na Board of Peace, iniciativa apresentada como instrumento de estabilização regional e financiada precisamente pelos países que agora sofrem as consequências do conflito.
Segundo dados que cita do Institute for Policy Studies, o custo direto da operação militar poderá atingir 65 mil milhões de dólares — e os impactos indirectos até 210 mil milhões — colocando não só o Golfo, mas também a população americana, a pagar uma guerra que não escolheu. Recorda ainda que Trump ordenou 658 ataques aéreos externos no primeiro ano do segundo mandato e que a sua taxa de aprovação caiu 9% em 400 dias, sinal de desgaste interno e de fadiga perante guerras evitáveis.
Na frase que se tornou símbolo desta ruptura, Al Habtoor escreveu: “A verdadeira liderança não se mede pelas decisões de guerra, mas pela sabedoria, pelo respeito pelos outros e pelo empenho em alcançar a paz.”
Pedro Sánchez: A Voz Europeia que Rompeu o Silêncio
Na Europa, apenas uma liderança falou com a clareza que a situação exige. O Primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, condenou inequivocamente os ataques, recusou o uso das bases espanholas para apoiar a operação e garantiu que Espanha não se deixaria intimidar pelas ameaças comerciais de Trump. Chamou à guerra “um erro extraordinário” que o mundo inteiro “já está a pagar”, alertando para as consequências económicas e humanitárias que se multiplicam a cada hora.
Num continente que se pretende bastião da paz, Sánchez destacou‑se como uma das poucas vozes com coragem ética.
Portugal: Diplomacia ou Silêncio?
Perante a mesma ofensiva, Portugal optou por uma posição discreta. Não acompanhou a claridade moral de Sánchez, nem condenou explicitamente a violação do direito internacional. É legítimo perguntar: por que ficou Portugal calado? Medo de retaliação? Fidelidade automática aos EUA? Prudência estratégica mal calibrada?
Num momento em que a Europa precisa de ser a consciência do mundo, a hesitação portuguesa revela um vazio político preocupante — sobretudo para um país que historicamente se orgulha de defender a mediação, a diplomacia e a resolução pacífica dos conflitos.
O Lado Certo da História Não Espera
O que está em causa não é apenas a sorte do Irão, de Israel ou dos países do Golfo. O que está verdadeiramente em jogo é o futuro da ordem internacional. E esse futuro não pode ser entregue à impulsividade de um Presidente que transforma a guerra num instrumento político e que arrasta nações inteiras para um abismo que ninguém escolheu.
A Europa — e Portugal com ela — precisa de recuperar a coragem que define os momentos decisivos. Como demonstrou Al Habtoor, como afirmou Sánchez, como a própria História nos recorda, a paz exige mais coragem do que a guerra.E o lado certo da História é sempre aquele onde se defendem vidas, não destruições; justiça, não cinismo; diplomacia, não devastação. Portugal, Espanha, a Europa e o mundo precisam de líderes que compreendam esta verdade simples, mas difícil: a guerra é sempre um fracasso da humanidade; a paz, pelo contrário, exige coragem.
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