Editores e escritores: Quando escrever já não chega — e sair passa a ser um dever de dignidade
Centenas de escritores portugueses assinam cartas; em França, 115 escritores levantaram‑se e saíram. Quando a independência editorial deixou de ser um princípio abstrato e passou a ter dono, os autores da Grasset fizeram o que raramente se faz no mundo literário europeu: transformaram uma carta num ato irrevogável — e pagaram o preço.
Durante anos, habituámo‑nos a pensar que a intervenção dos escritores no espaço público se esgota naturalmente na palavra escrita. Manifestos, cartas abertas, moções de preocupação: tudo isso faz parte do repertório democrático das sociedades cultas. O problema começa quando esses gestos se repetem vezes suficientes para deixarem de incomodar quem detém o poder real. É nesse ponto exato que o episódio francês da editora Grasset se torna exemplar — não pelo dramatismo, mas pela lucidez.
O ponto de partida foi o afastamento de Olivier Nora, diretor geral da Grasset durante 26 anos. A decisão foi apresentada pelo grupo Hachette como uma simples mudança de gestão. Para os autores, porém, tratou‑se de algo bem diferente: um despedimento político, ligado à nova ordem instalada desde que a Hachette passou para a esfera de controlo de Vincent Bolloré, em 2023. Não foi um ato isolado, mas mais um episódio numa sequência já observada noutras casas editoriais do mesmo grupo, onde diretores, editores e autores saíram após alterações profundas na orientação estratégica e editorial..
Sob a direção de Nora, a Grasset manteve algo hoje quase subversivo: a convivência, no mesmo catálogo, de autores com posições ideológicas profundamente divergentes. Essa pluralidade não resultava de neutralidade, mas de........
