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As mulheres que querem conservar o quê? Opinião de José Paulo Santos

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25.08.2026

Há movimentos políticos que chegam com ruído. Outros chegam com sorrisos. Vestem-se de elegância, salto alto vermelho na sola, falam de família, maternidade, fé, tradição, educação e “valores”. Publicam frases bonitas, recomendam livros, convocam mulheres para uma ideia de comunidade e apresentam-se como resposta a um feminismo que, dizem, já não representaria todas. É precisamente por isso que importa olhar para eles com atenção. Não para insultar quem pensa de maneira diferente, nem para transformar divergência política em guerra de sexos, mas para fazer aquilo que uma democracia deve sempre fazer perante uma nova força política: perguntar o que está realmente a ser proposto, quem beneficia dessa proposta e quem poderá ficar para trás.

O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal começou a afirmar-se publicamente este verão, com um encontro em Sintra que reuniu mulheres portuguesas e brasileiras, entre elas figuras ligadas ao partido do Chega e ao universo político conservador brasileiro. A imprensa identificou também a presença de Priscila Costa, deputada brasileira, e a circulação de ideias e referências provenientes das redes conservadoras transnacionais. 

A fundadora, Rebeca Batista, apresenta a iniciativa como uma resposta àquilo que considera ser a incapacidade do feminismo contemporâneo para representar a pluralidade das mulheres. O movimento, contudo, ainda não publicou um manifesto definitivo. Esta circunstância exige prudência: não devemos atribuir ao coletivo aquilo que apenas algumas das suas protagonistas defenderam individualmente. Mas prudência não é silêncio. Aquilo que já foi dito, publicado e defendido permite perguntas legítimas.

E a primeira palavra que devemos interrogar é precisamente a que dá nome ao movimento: conservar. Conservar o quê? A família? A maternidade? A religião? A tradição? Uma determinada moral sexual? Uma ideia específica de feminilidade? Papéis distintos para homens e mulheres? Nenhuma destas posições é, por si só, ilegítima numa democracia. 

Uma mulher pode ser profundamente conservadora, religiosa, maternal, tradicionalista e, ao mesmo tempo, defender integralmente a igualdade perante a lei. O problema começa noutro lugar: quando uma escolha pessoal deixa de ser apresentada como escolha e passa a ser apresentada como destino; quando aquilo que uma mulher deseja para si começa a ser utilizado como medida daquilo que todas as mulheres deveriam desejar.

Conservar é uma palavra perigosa quando esquecemos que também se pode conservar uma injustiça.

Portugal conhece demasiadamente bem essa história. Durante grande parte da nossa história recente, a desigualdade entre homens e mulheres não era apenas cultural: estava inscrita na lei, na educação, no trabalho, na família e na organização da sociedade. A autoridade masculina foi, durante décadas, tratada como natural. A violência conjugal foi durante muito tempo empurrada para a esfera privada. A autonomia económica e social das mulheres era limitada. O reconhecimento jurídico da violência doméstica como crime público, consolidado pela Lei n.º 7/2000, constituiu uma ruptura fundamental com essa ideia de que aquilo que acontecia dentro de casa dizia respeito apenas à família. 

É por isso que qualquer projeto político que coloque a família no centro da sua visão da sociedade precisa de responder a uma pergunta que não pode ser evitada: o que fazemos quando a família deixa de ser lugar de proteção e se transforma num lugar de medo? Conservamos a família ou protegemos a pessoa? A resposta deveria ser óbvia: primeiro protegemos a pessoa. Mas a própria necessidade de formular a pergunta demonstra que os valores podem entrar em conflito. O Conselho da Europa, através do GREVIO, reconheceu os progressos portugueses no combate à violência contra as mulheres, mas alertou, em 2025, para a persistência de atitudes patriarcais e para situações em que a preservação da unidade familiar pode ser privilegiada em detrimento da segurança das vítimas. 

Os números tornam impossível transformar esta discussão numa abstração ideológica. A violência doméstica continua a produzir milhares de ocorrências e vítimas em Portugal. No primeiro trimestre de 2025, foram registadas 7056 ocorrências de violência doméstica; no segundo trimestre de 2026, a CIG registou 7871 ocorrências e sete homicídios voluntários em contexto de violência doméstica, envolvendo três mulheres, três crianças e um homem. Há mulheres que fogem de casa, crianças que entram em estruturas de acolhimento, vítimas que passam anos sob controlo psicológico e económico e mulheres que acabam assassinadas. Perante esta realidade, falar de família sem falar de poder dentro da família é falar apenas de metade do problema.

Uma família não é boa porque é tradicional. É boa quando é segura. Não é saudável porque permanece intacta. É saudável quando as pessoas que a constituem podem permanecer nela sem medo. Uma família que exige o silêncio de uma vítima para preservar a sua aparência não está a preservar uma família; está a preservar uma hierarquia.

É precisamente aqui que o novo conservadorismo feminino apresenta uma........

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