Antes de julgar, compreender
“Julgar é, evidentemente, não compreender, pois se compreendêssemos, não poderíamos julgar.” A frase de André Malraux, escrita em 1928 em Les Conquérants, ecoa com uma atualidade desconcertante. Quase um século depois, continuamos reféns de uma máquina de julgar que funciona a todo o vapor, enquanto a compreensão permanece na estação, à espera de um comboio que nunca chega.
Basta olhar em redor. Ou, mais desconfortável ainda, olhar para dentro. No casal, o parceiro chega atrasado e imediatamente saltamos para o veredito: “É irresponsável”, “Não se importa comigo”. Raramente nos ocorre perguntar: “O que se passou? Estás bem?”. Na família, o filho adolescente fecha-se no quarto e lá vamos nós: “É preguiçoso”, “Só quer saber dos amigos”. Quantos de nós tentaram verdadeiramente entender o turbilhão emocional que ele atravessa?
No trabalho, o colega não entrega o relatório a tempo. Julgamos: “É incompetente”, “Não leva o trabalho a sério”. E se estiver sobrecarregado? E se houver algo na vida pessoal que o esteja a consumir? Entre amigos, a situação repete-se. Deixamos de receber mensagens e rapidamente concluímos: “Já não se importa com a nossa amizade”. Antes de perguntar: “Tenho notado que estás mais ausente. Está tudo bem?”.
A tirania da razão rápida
O problema é que julgamos porque é fácil. Julgar é rápido, económico em termos de energia emocional. Exige apenas um instante e uma pitada de certezas. Compreender, por outro lado, é caro. Exige tempo — muito tempo. Exige disponibilidade para estar verdadeiramente presente. Exige empatia, essa capacidade tão rara de nos colocarmos no lugar do outro sem perdermos o nosso. Exige escuta ativa, aquela que silencia a nossa voz interior para dar espaço à do outro.
Preferimos a razão ao entendimento porque a razão nos dá uma falsa sensação de controlo e de superioridade moral. Quando julgamos, posicionamo-nos no lugar do juiz, do detentor da verdade. Quando tentamos compreender, aceitamos a nossa ignorância, a nossa vulnerabilidade. Admitimos que não sabemos, que precisamos de aprender sobre o outro.
A sabedoria de Montaigne sobre o julgamento
Quatro séculos antes de Malraux, Michel de Montaigne já alertava para esta dificuldade humana nos seus Ensaios. “É coisa........
