Alerta urgente: a água que ainda teimamos em desperdiçar
Há viagens que nos deixam fotografias. Outras deixam-nos uma inquietação que regressa connosco a casa. A viagem que fizemos entre os dias 4 e 14 de agosto, ao longo de cerca de 2900 quilómetros de estrada, entre Aveiro, Burgos, Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan, Bordéus, Valladolid e Tordesilhas, trouxe-me uma certeza física que é difícil ignorar: o clima que durante décadas associei a Cabo Verde, ao Brasil, à Guiné Equatorial, à Tunísia ou a outras geografias de calor e escassez começou a instalar-se dentro da Europa.
Em sucessivos dias, atravessámos temperaturas entre os 36 e os 41 graus Celsius. Em Albi, os registos apontaram para 40 graus nos dias 13 e 14; em Carcassonne, a estação registou 40,6 graus no dia 13; em Bordéus, a Météo-France registou 40,9 graus nesse mesmo dia; e, em Narbonne, as temperaturas máximas chegaram aos 40 e 41 graus. Não são apenas números: são temperaturas que modificam o comportamento, alteram o sono, dificultam o trabalho, tornam penosa a permanência ao ar livre, a respiração e transformam a simples deslocação de uma pessoa numa experiência árdua de resistência física.
Burgos não escapou a esse corredor de calor. No dia 12 de agosto, a estação do aeroporto chegou aos 36 graus durante a tarde. Em Valladolid, a estação da AEMET registou 37,3 graus às 18 horas do dia 12, depois de uma manhã que já começara com temperaturas elevadas; no dia seguinte, as previsões locais apontavam para 39 graus. Em Tordesilhas, onde parámos antes do regresso, a temperatura acompanhava a mesma massa de ar quente que afetava a província de Valladolid. O termómetro pode variar alguns graus entre estações e localidades, mas a sensação no corpo não precisa de uma casa decimal para se tornar evidente: atravessávamos uma Espanha e uma França que nos obrigavam a reorganizar o dia em função do calor.
Em Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan e Bordéus, a paisagem continuava magnífica, mas o corpo já não a recebia da mesma maneira. Há um momento em que o calor deixa de ser apenas uma característica do lugar e passa a dominar o lugar. O monumento continua no mesmo sítio, o rio Garonne e o Canal du Midi continuam a correr, a praça continua cheia de história, as vinhas continuam alinhadas no horizonte; mas nós começamos a perguntar-nos quanto tempo podemos permanecer ali. O clima deixa de ser pano de fundo e transforma-se em protagonista.
Conheço essa sensação. Vivi em Cabo Verde, na Tunísia, no Brasil e na Guiné Equatorial. Conheço o que significa viver numa geografia onde a água não é uma evidência quotidiana. Sei o que é passar semanas sem água. Sei o que significa receber na cisterna uma tonelada de água para um mês inteiro e ter de a distribuir pela higiene, pelo banho, pela cozinha, pela roupa, pela limpeza da casa e pelas restantes necessidades essenciais. Uma tonelada são mil litros. Divididos por 30 dias, representam cerca de 33,3 litros por dia. Não 33 litros para beber, porque é impossível por ser perigosa. Não 33 litros para tomar banho. Trinta e três litros para tudo.
Quando se vive assim, a água muda de estatuto. Deixa de ser invisível. Cada banho é uma decisão. Meio copo de água para lavar os dentes. Cada lavagem de roupa implica planeamento. Cada balde tem um destino. Cada litro desperdiçado transforma-se numa perda concreta. Em Cabo Verde, lavavam o meu carro com meio balde de água. Aquilo que um europeu pode interpretar como uma curiosidade ou uma extravagância de contenção era, na realidade, uma resposta racional à escassez. Quando a água pode faltar durante dias ou semanas, desperdiçá-la deixa de ser um comportamento banal e passa a ser uma forma de irresponsabilidade.
É impossível transportar essa experiência para a Europa sem fazer uma pergunta incómoda: quanto gastamos nós?
Um residente europeu utiliza, em média, cerca de 124 litros de água por pessoa e por dia no abastecimento doméstico, embora existam diferenças muito significativas entre países e regiões. Isto significa que o consumo doméstico médio europeu é aproximadamente 3,7 vezes superior aos 33,3 litros diários com que aprendi a viver em situações de escassez. A diferença é tão grande que deveria bastar para nos obrigar a repensar a palavra “normalidade”. O que chamamos consumo normal numa sociedade de abundância seria, noutro contexto, um luxo difícil de imaginar.
Há, porém, uma segunda conta, muito mais perturbadora. Os 124 litros não representam a água escondida nos alimentos que comemos, na energia que consumimos ou nos bens que compramos. Quando se calcula a pegada hídrica associada ao consumo de um cidadão médio da União Europeia, incluindo a água incorporada nos processos de produção, a estimativa........
