A não-violência começa onde a nossa razão se sente autorizada a ferir
É fácil declararmo-nos contra a violência enquanto ninguém nos humilha, contraria ou toca no lugar onde guardamos uma ferida antiga. A dificuldade começa quando temos uma resposta capaz de magoar e sabemos exatamente onde colocá-la; quando uma injustiça nos revolta e a vontade de a corrigir se mistura com o desejo de fazer sofrer quem a cometeu. Nesse instante, a não-violência deixa de ser uma palavra bonita e passa a exigir alguma coisa de nós.
Não precisamos de viajar até ao Tibete para a encontrar, nem de pendurar Gandhi na parede da sala. Podemos conhecer de cor uma biblioteca de sabedoria e continuar a castigar quem vive connosco através do silêncio, do desprezo ou da ironia. Também podemos nunca ter lido um tratado sobre a paz e saber interromper uma discussão antes de transformar a vulnerabilidade de alguém numa arma. A distância entre aquilo que admiramos e aquilo que praticamos mede-se, muitas vezes, dentro de casa.
A não-violência envolve uma disposição interior, uma maneira de ser, de estar e de olhar o mundo. Contudo, chamar-lhe apenas “estado de espírito” deixa de fora uma parte decisiva da sua exigência: aquilo que fazemos quando o nosso espírito está longe de estar em paz.
A raiva também entra nesta conversa
Judith Butler é uma filósofa norte-americana e professora na Universidade da Califórnia, em Berkeley, reconhecida pelo seu contributo para o pensamento feminista e os estudos de género. A sua reflexão estende-se à vulnerabilidade humana, à interdependência e à responsabilidade ética e política perante a vida dos outros. Em A Força da Não-Violência, publicado em Portugal pelas Edições 70, em 2021, investiga uma resistência à injustiça que exige compromisso com a igualdade e com a preservação da vida.
Na passagem que acompanha esta reflexão, Butler apresenta a não-violência como uma luta social e política capaz de dar expressão e eficácia à raiva. A provocação culmina num “fuck you” cuidadosamente elaborado, expressão que a entrevista publicada pela Guernica, em torno de Frames of War, também recupera. O desconforto tem uma função: retirar a não-violência do território da docilidade e devolver-lhe a força da resistência.
Esta perspetiva obriga-nos a abandonar a imagem da pessoa não-violenta, em posição de lótus, como alguém permanentemente sereno, incapaz de se zangar, sempre disponível para compreender. Uma serenidade assim pode ser admirável; pode igualmente esconder medo de desagradar, cansaço ou uma longa aprendizagem de submissão. Há situações em que a........
