menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Opinião | Será que basta trabalhar?

45 0
21.02.2026

O debate sobre meritocracia ganhou novo fôlego nas últimas décadas, sobretudo em contextos marcados por desigualdades persistentes. Defensores da meritocracia sustentam que o sucesso individual decorre essencialmente do talento, do esforço e da disciplina. No entanto, quando analisamos os determinantes sociais, torna-se evidente que a ideia de uma competição justa e equilibrada é, muitas vezes, uma falácia conveniente.

Os determinantes sociais — conceito amplamente desenvolvido por organismos como a Organização Mundial da Saúde — referem-se às condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem. Educação, rendimento familiar, acesso à saúde, habitação, rede de contactos, contexto territorial e estabilidade institucional moldam profundamente as oportunidades disponíveis. Ignorar estes fatores equivale a assumir que todos partem da mesma linha de partida, quando, na realidade, muitos começam a corrida vários metros atrás.

A narrativa meritocrática tende a invisibilizar privilégios estruturais. Um estudante que frequenta escolas de excelência, dispõe de apoio familiar e acesso a recursos culturais não compete em igualdade com outro que enfrenta carências materiais ou instabilidade social. Ambos podem esforçar-se, mas o esforço não produz resultados idênticos quando as condições de base são desiguais. A meritocracia, nesse sentido, transforma desigualdades estruturais em aparentes falhas individuais.

Além disso, a crença acrítica na meritocracia pode gerar efeitos perversos. Ao atribuir o sucesso exclusivamente ao mérito, reforça-se a ideia de que o fracasso decorre de incapacidade pessoal, legitimando desigualdades e reduzindo o ímpeto de políticas públicas redistributivas. Tal perspetiva contraria evidências acumuladas por estudos internacionais, como os relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que demonstram a forte correlação entre contexto socioeconómico e mobilidade social.

Importa, contudo, evitar uma leitura simplista. Reconhecer a influência dos determinantes sociais não significa negar o valor do esforço individual. Significa, antes, compreender que o mérito só pode ser avaliado de forma justa quando existem condições mínimas de equidade estrutural. Sociedades verdadeiramente meritocráticas exigiriam investimentos robustos em educação pública de qualidade, saúde acessível, proteção social eficaz e políticas ativas de inclusão.

A falácia da meritocracia não reside na valorização do mérito, mas na omissão das desigualdades que o condicionam. Enquanto os determinantes sociais continuarem a moldar de forma decisiva as trajetórias individuais, a promessa de que “quem trabalha mais chega mais longe” permanecerá, para muitos, uma narrativa distante da realidade.

Num tempo em que se discute justiça social, produtividade e coesão, talvez o desafio não seja abandonar a ideia de mérito, mas enquadrá-la num compromisso coletivo com a igualdade de oportunidades. Só assim deixará de ser uma retórica legitimadora de desigualdades para se tornar um princípio efetivamente justo.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


© Visão