PSD: A esperteza saloia da antecipação das diretas. Opinião de Filipe Luís
1. ‘‘Também já ouvi coisas de que não gosto… e andei.” Pedro Passos Coelho reagiu assim ao desafio (implícito) de Luís Montenegro, para que viesse a terreiro e se candidatasse à liderança, nas diretas que o líder do PSD entendeu antecipar para maio. O ex-primeiro-ministro tornou-se uma espécie de líder da oposição, dentro do seu próprio partido, e isso já vem de antes da campanha das eleições presidenciais. Conforme escrevi aqui, na edição de 6 de novembro do ano passado, depois de uma das suas primeiras intervenções realmente críticas sobre o governo, “o antigo líder do PSD e antigo primeiro-ministro, num longo discurso de 30 minutos, estabeleceu um programa de governo, do seu governo, se fosse ele que mandasse, que em (quase) tudo se demarca da filosofia seguida por Luís Montenegro”. Na altura, Passos tinha reconhecido: “É uma crítica que aqui assumo”, e foi esse o título desta coluna. As recentes intervenções do mesmo Passos, que exige que o Governo “comece a fazer” alguma coisa, por ter sido “para isso que foi eleito”, parecem ter exasperado o primeiro-ministro.
Passos Coelho suportou, com paciência cristã, as críticas que lhe fizeram, em quatro anos de Troika, alguns dos barões mais notáveis do seu partido, de Manuela Ferreira Leite a Rui Rio, passando por Luís Marques Mendes. Na altura, ouviu coisas de que não deve ter gostado – mas nunca lhe passou pela cabeça alterar os calendários estatutários do seu partido para desafiar os críticos a virem a jogo. (Não é pelo facto de um adepto de futebol identificar falhas no jogo da sua equipa que é obrigado a ir para dentro do campo dar pontapés na bola…) Nessa altura, Passos, simplesmente… “andou”. Ao contrário, Pedro Santana Lopes, por exemplo, também sob fogo cerrado de críticos do seu próprio partido, tinha-se queixado de estar numa espécie de incubadora a levar pontapés dos irmãos mais velhos. Montenegro, por seu turno, de forma um tanto ou quanto sonsa, desafia “aqueles” que pretendem outra linha para o PSD ou para o governo, a apresentarem-se nas diretas antecipadas de maio, que, já agora, deviam disputar-se em setembro. Sabendo, claro, que o prazo é demasiado curto para que uma candidatura estruturada seja devidamente organizada. E estando farto de saber que, nesta altura, ninguém vai atrever-se a trocar o que tem – ou seja, o poder – pelo que não quer ter: a desistência do poder, depois de uma crise política, desencadeada pelo próprio PSD, que seria, então, devidamente penalizado nas urnas. O militante de base mais “básico” sabe fazer estas contas. É verdade que somado ao Chega, em coligação ou simples acordo, provavelmente, o PSD viria sempre a integrar um governo. Mas já não sozinho – descontando a muleta CDS. E nem sequer é garantido que André Ventura, em tais circunstâncias, não ganhasse as eleições. E que não fosse ele, e não o então líder social-democrata, mesmo Passos Coelho, o novo primeiro-ministro… O cenário é, aliás, logo à partida, absurdo: se Luís Montenegro tivesse um adversário, em maio, que lhe ganhasse as eleições internas, o que lhe restaria senão demitir-se de primeiro-ministro? Mesmo não sendo obrigado a isso: o seu compromisso é com o eleitorado nacional, não com o eleitorado dos militantes do PSD. Mas a sua posição ficaria insustentável. O PSD cometeria um suicídio político que nenhum partido com vocação de poder está disposto a cometer. Montenegro sabe bem isso, pelo que a sua bravata destina-se, apenas, a relegitimar-se, internamente, exibindo aos críticos – a Passos Coelho… − uma vitória norte-coreana, deixando-os a falar sozinhos. É isto que Montenegro pretende, com este “número” de esperteza-saloia política. Mas, então, porque tem ele de antecipar as diretas de setembro para maio? Não lhe bastaria deixar correr o calendário normal?
Ha dois motivos para essa antecipação. O primeiro, quiçá o menos relevante, obter a tal vitória norte-coreana o mais depressa possível, prevenindo surpresas, que poderiam surgir em setembro, e inibindo um eventual challenger, devido ao aperto do calendário. Um prazo que impede qualquer candidatura alternativa séria. O segundo motivo, talvez mais decisivo, é o de que ninguém sabe o que acontece até setembro. A situação internacional, até lá, provocará instabilidade, descontentamento, conflitualidade social e quebra de popularidade. A posição do líder do PSD e primeiro-ministro será muito mais frágil. E ainda há uma investigação judicial sobre uma “certa casa de Espinho” que se apresenta como uma verdadeira “bicha de rabiar”: ninguém sabe em que direção disparará… Sem surpresa, reagindo a este repto, é Passos quem deixa o líder do seu partido a falar sozinho…
2. A nova crise no Médio Oriente, que os consumidores portugueses, incluindo os que votam no Chega, devem agradecer a Donald Trump, pode provocar um surto inflacionista idêntico ao que começou na ressaca da pandemia e se agravou com a invasão da Ucrânia. Na apresentação do programa de governo de maioria absoluta de António Costa, na primavera de 2022, o então ministro da Economia, António Costa Silva, avançou, metendo foice na alheia seara das Finanças, com uma ideia em que ninguém, nem o primeiro-ministro, então pegou no imediato. A sugestão resumia-se a uma expressão anglo-saxónica nunca vista entre nós: a do windfall tax, taxa aplicada às energéticas que, então, somavam um conjunto de lucros excessivos, fruto, não do normal funcionamento do mercado, mas do surto inflacionista provocado por razões extraordinárias. A taxa adicional sobre os tais lucros excessivos acabaria por ser tímida e limitadamente aplicada, mas deixou de fora inúmeros interesses, a começar pelos da banca, com as instituições financeiras a lucrarem milhares de milhões de euros por dia com as subidas das taxas de juros, consecutivamente decretadas pelo BCE. Ou seja, bancos que também tiveram lucros excessivos, sem taxação, imposto esse que, a aplicar-se, poderia ter sido devolvido às famílias, através de apoios do Estado. A medida da subida das taxas de juro, que é um clássico pouco imaginativo, destina-se, segundo os canhenhos, a encarecer o dinheiro, contendo o consumo e, assim, a procura e a subida dos preços. Mas o BCE fingia ignorar que o aumento dos juros inflacionava – era “inflação” pura e dura… − as prestações bancárias. Na verdade, os consumidores continuavam a gastar, só que, em vez de gastarem nos bens de consumo habituais e necessários, concentravam o gasto, à força, nas hipotecas. Esta perversão monetária poderá ajudar a evitar a desvalorização da moeda – o alfa e o ómega da política monetária da Zona Euro –, mas é, do ponto de vista do consumidor, uma falsa moderação da subida dos preços: os preços da hipoteca sobem. Em breve, voltaremos a ter a mesma discussão e a tensão latente entre governos – que respondem a eleitores – e o BCE, que não responde a ninguém, voltará a fazer-se sentir. Estará na hora de a Europa, aprendendo com a experiência recente, procurar um equilíbrio entre inflação – deixando-a trepar um pouco mais do que em 2022 – e segurança monetária. Na verdade, o BCE, não dependendo de ninguém em específico, depende de regras europeias. E essas são a política quem as estabelece… ou modifica.
