A Quaresma como património vivo no concelho de Ovar
A Quaresma em Ovar não é apenas um período do calendário litúrgico, é uma paisagem moral e cultural que se impõe à cidade e às suas freguesias, moldando o espaço público e a vivência coletiva. Num tempo em que tantas tradições se esbatem na voragem do imediatismo, a ritualidade quaresmal vareira permanece como um testemunho singular de continuidade histórica e de identidade partilhada. Mais do que expressão de fé, é um património vivo que convoca crentes e não crentes para um diálogo com a memória.
Ovar transforma-se durante a Quaresma. O silêncio adensa-se nas ruas, as procissões desenham percursos de recolhimento, e as capelas dos passos, discretas ao longo do tecido urbano, assumem protagonismo simbólico. Esses pequenos templos, muitas vezes ignorados na azáfama quotidiana, tornam-se marcos de uma narrativa que atravessa séculos. São estações de uma pedagogia visual que relembra o sofrimento, a fragilidade e a esperança, temas universais que ultrapassam a dimensão estritamente religiosa.
As capelas dos passos não são meros objetos arquitetónicos, são fragmentos de uma teologia encenada no espaço público, onde a arte sacra dialoga com a rua, com as casas e com quem passa. A sua preservação não pode ser entendida apenas como dever devocional, mas como responsabilidade cultural. Num país onde tantas vezes se negligencia o património de pequena escala, estes edifícios recordam-nos que a identidade constrói-se também nos detalhes, nos nichos, nas fachadas discretas que contam histórias silenciosas.
O mesmo se pode dizer das igrejas de Válega e Cortegaça. A primeira, com a exuberância cromática dos seus azulejos, afirma-se como exemplo notável da religiosidade popular transfigurada em arte. A segunda, mais contida, mas arte azulejar única, integra-se na paisagem litoral com uma sobriedade que convida ao recolhimento. Ambas são testemunhos de comunidades que investiram recursos, talento e fé na edificação de espaços que ultrapassam a função cultual. São arquivos de pedra e azulejo onde se inscrevem gerações.
Num contexto de crescente secularização, importa perguntar que lugar ocupam estas tradições na sociedade contemporânea? Para alguns, poderão parecer relíquias de um passado distante. Contudo, reduzir a Quaresma vareira a um resquício folclórico seria ignorar a sua capacidade de gerar coesão e sentido. Mesmo para quem não participa na dimensão espiritual, há uma experiência estética e comunitária que não pode ser descartada.
A tradição quaresmal em Ovar evidencia ainda uma dimensão pedagógica rara. Num tempo dominado pela aceleração e pela exposição constante, a proposta de silêncio, de contenção e de introspeção assume um carácter quase contra cultural. As procissões noturnas, iluminadas por velas, criam uma atmosfera onde o ritmo abranda e a comunidade caminha unida. Essa experiência partilhada contrasta com a fragmentação que marca tantas esferas da vida contemporânea.
Há, porém, desafios evidentes. A manutenção das capelas dos passos exige recursos financeiros e vontade política. Não basta celebrar a tradição, é necessário investir na sua sustentabilidade. O património religioso, mesmo quando pertence juridicamente à Igreja, integra a herança coletiva e deve ser entendido como bem comum.
Também se coloca a questão da transmissão, as novas gerações vivem num ecossistema cultural profundamente distinto daquele em que estas práticas se consolidaram. Para que a tradição não se transforme em encenação vazia, é essencial que seja explicada, contextualizada e reinterpretada. Não se trata de cristalizar o passado, mas de permitir que ele dialogue com o presente.
A Quaresma vareira é, em última análise, um exercício de memória coletiva. Ao percorrer as capelas dos passos ou ao visitar as igrejas de Válega e Cortegaça, não se visita apenas um espaço sagrado, visita-se uma história partilhada. E talvez seja essa a sua maior força, recordar-nos que, apesar das mudanças e das crises, há fios invisíveis que continuam a ligar passado e presente.
Preservar estas tradições não é um gesto de nostalgia. É um ato de responsabilidade cultural, porque uma comunidade que cuida do seu património, seja ele religioso, artístico ou simbólico, afirma a sua maturidade e projeta-se no futuro com maior consciência de si mesma. Em Ovar, a Quaresma continua a ser mais do que um ritual, é uma afirmação de identidade e um convite à reflexão coletiva.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
