A Terra Prometida. Opinião de Diogo Augusto
Não é fácil manter a ordem social. Ao contrário das bestas, somos habitados por ambições, medos, inseguranças, valores e outras chatices. Essas coisas que nos fazem humanos tornam-nos completamente imprevisíveis, particularmente quando nos encontramos em situações de particular injustiça.
Perdoe-se-me a referência recuada, mas o mundo feudal é particularmente rico nisso. Era um sistema assente numa hierarquia profundamente vincada e, idealmente, intransponível no qual uma linhagem nobre tinha privilégios profundamente injustos baseados nas vidas miseráveis dos camponeses. Precisava de um controlo bastante musculado para que toda a gente o aceitasse.
Na obra Fuenteovejuna, de 1619, o dramaturgo espanhol Lope de Vega conta a história de uma pequena povoação que vive aterrorizada pelo governador local. Para não variar, o terror envolve a violação de mulheres e a revolta dos seus companheiros numa objetificação das mulheres que é também levada a cabo pelo próprio autor —mas deixemos isso de lado agora.
O terrível governador, dizia eu, comete atos de uma atrocidade indizível até que a população resolve fazer justiça pelas próprias mãos e lincha o governador. Os reis, ao saberem-no, mandam um juíz para a vila que desata a torturar velhos, mulheres e crianças para descobrir os responsáveis pela morte do governador.
Os aldeãos não cedem e dizem que a responsável foi Fuenteovejuna, ou seja, a própria vila e os reis decidem ir ouvir os seus habitantes. O principal queixa-se de que o governador lhe roubou a esposa no dia do casamento para lhe tirar a virtude e um outro aldeão diz: “Senhor! Queremos ser vossos vassalos. Sois de direito o nosso rei e já arvorámos as vossas arma. Apelamos para a vossa clemência.”
O rei, comovido, declara: “O........
