“Metade do céu” está a mudar. Opinião de António Caeiro
“As mulheres sustentam metade do céu”: é uma das metáforas atribuídas ao fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, citadas ainda hoje como ilustração do empenho comunista na emancipação feminina. Demográfica e socialmente, porém, a situação é muito diferente da que vigorou durante os 27 anos do governo maoista. Uma destacada feminista chinesa, Lu Pin, considera que a acentuada e persistente queda da natalidade que se verifica atualmente é “uma forma de desobediência não violenta ao Estado patriarcal”.
Desde o final dos anos 70 até 2016 – o tempo em que os casais urbanos só podiam ter um filho –, o número de crianças do sexo feminino nascidas na China diminuiu drasticamente. A política era drástica, mas a tradição resistiu. São os filhos do sexo masculino que continuam a perpetuar o apelido da família.
O aborto tornou-se prática corrente, mesmo ao fim de quatro meses de gravidez, se o feto não era do sexo masculino. Segundo estatísticas do Ministério da Saúde, em 2008, por exemplo, o número de abortos ultrapassou os nove milhões. Uma ONG cristã, fundada nos EUA por exilados chineses, falava em 13 milhões. Dezenas de milhares de crianças do........
