Sabemos o que aí vem. Como sempre
Não sou cientista. Nunca fui. E, por isso, quando falo de El Niño não falo com a autoridade de quem modela o clima, falo com a inquietação de quem leu os alertas, de quem esteve no terreno a tentar ajudar depois da Kristin, de quem acredita que Portugal tem um problema muito mais antigo do que qualquer fenómeno meteorológico.
Um problema de memória curta. E de inação crónica.
Nas últimas semanas, os principais centros climáticos do mundo estão a dizer a mesma coisa. Um El Niño forte está a formar-se no Pacífico. A NOAA, a agência norte-americana, estima 62% de probabilidade de se instalar ainda este verão. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas coloca as hipóteses de um episódio forte em 80 por cento. E a palavra que está a aparecer com mais frequência nos modelos climáticos é esta: Super El Niño. Aquele em que a anomalia de temperatura do Pacífico equatorial ultrapassa dois graus acima da média. O último foi em 2023-2024. Antes, em 2015-2016. Em 1997-1998. Todos bateram recordes de temperatura global. Todos trouxeram catástrofes. Todos foram anunciados meses antes.
E em todos eles ficámos surpreendidos quando chegaram.
Eu não me consigo surpreender. Porque vi a Kristin chegar. Vi o aviso. Vi os dias de alerta vermelho anunciados com antecedência. E depois vi o que a Kristin fez quando chegou, na noite de 27 para 28 de janeiro, com ventos a 209 quilómetros por hora em Soure, com o sting jet a rasgar a região centro como uma navalha, com 68 concelhos em calamidade e 1,7 milhões de famílias sem eletricidade. Catorze mortos. Cinquenta monumentos nacionais danificados. Comunidades inteiras sem comunicações durante semanas.
Depois da Kristin, fui voluntária na plataforma TempestadeSOS. Vi o que ficou para trás quando a atenção mediática passou à frente. As casas sem telhado. As pessoas que não sabiam a quem pedir ajuda. A desorganização de um sistema que reage sempre depois, nunca antes. E vi também, com uma raiva que ainda não passou, o circo dos apoios: as pessoas afetadas que para aceder a fundos de emergência tinham de ter a situação fiscal regularizada, incluindo portagens, cobradas em regime que os próprios tribunais têm contestado. Escrevi sobre isso. Continuou igual.
E agora os cientistas dizem que pode vir aí algo ainda maior.
Não é que o El Niño vá destruir Portugal. Os efeitos diretos no nosso país são, segundo os próprios especialistas, menos previsíveis do que nas regiões tropicais. Mas num planeta que já aquece, num país que já está entre os mais vulneráveis da Europa às alterações climáticas, qualquer impulso adicional de energia no sistema amplifica o que já existe. Mais verões extremos. Mais precipitação concentrada e violenta, exatamente o tipo que os solos impermeabilizados pela urbanização selvagem não conseguem absorver. Mais condições para incêndios, num país que no verão passado voltou a arder, com a floresta que tem gerida como está, cheia de eucalipto onde devia haver diversidade e de abandono onde devia haver gestão.
Há décadas que os cientistas dizem estas coisas. Há décadas que os alertas chegam, circulam, geram manchetes durante três dias e desaparecem. E depois vem a catástrofe e toda a gente pergunta como foi possível não estarmos preparados.
Sei exatamente como foi possível. Porque preparar custa dinheiro agora. E o custo de não preparar é pago mais tarde, por outros, em vidas e em mil milhões de euros de medidas de emergência aprovadas às três da manhã num Conselho de Ministros extraordinário. O modelo económico dominante não tem horizonte para o que demora décadas a construir e segundos a destruir. Tem trimestres. Tem ciclos eleitorais. Tem relatórios de resultados.
A natureza não lê esses relatórios.
É isso que me perturba, no fundo. Não o El Niño em si, que é um fenómeno natural e cíclico, que existia muito antes de existirmos e continuará depois de nós. O que me perturba é a nossa relação com o mundo natural. Não é de respeito. É de conveniência. Utilizamos, extraímos, construímos por cima, entubamos ribeiras, impermeabilizamos margens de rios, plantamos monoculturas que ardem melhor do que qualquer coisa que a natureza escolheria. E quando a natureza responde, chamamos-lhe catástrofe e pedimos solidariedade europeia.
O secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial foi claro: a confirmação de um El Niño é o sinal para os governos mobilizarem preparativos. Para criarem sistemas de alerta precoce. Para agirem antes, não depois.
Cá em Portugal, estamos a aguardar.
Não sou cientista. Sou cidadã. E sei que quando há aviso suficiente e não há resposta suficiente, isso tem nome. Não é azar. Não é imprevisível. É uma escolha. E as escolhas têm consequências, e as consequências têm responsáveis.
Já sabemos o que aí vem. A questão é se desta vez fazemos alguma coisa antes de chegar.
Não vou apostar que sim.
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