Um gângster como Vorcaro estar na agenda de Moraes já é escandaloso
Um gângster como Vorcaro estar na agenda de Moraes já é escandaloso
O banqueiro Daniel Vorcaro colocou o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), numa sinuca de bico. Há fortes suspeitas de que ele tenha trocado mensagens com o ministro, via celular. Isso ocorreu entre as 7h19 e as 20h48 de 17 de novembro de 2025, dia de sua prisão, consumada às 22h.
Antes, Vorcaro já havia deixado suas digitais corruptoras na toga do ministro Dias Toffoli.
A troca de mensagens é negada por Moraes. Em nota publicada na sexta-feira (6), Moraes não nega o número de seu celular. Nega apenas que as mensagens fossem para ele. Frisou desconhecer o teor das mensagens.
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O certo é que as mensagens foram enviadas ao número telefônico de Moraes, com recebimento e respostas. Se ele leu e respondeu, a perícia irá desvendar.
Atenção: um gângster perigoso como Vorcaro ter o celular e o WhatsApp de Moraes, estar na agenda do magistrado e ter a esposa do ministro como advogada já é escandaloso. Algo socialmente inaceitável. Viola o dever de conduta irrepreensível exigido pela Loman (Lei Orgânica da Magistratura Nacional).
Moraes, encapsulado, ficou apenas com duas saídas por estreitas portas de emergência:
pedido de exoneração do cargo e das funções de supremo ministro ou
agarrar-se ao corporativismo existente no STF, embora isso, para a opinião pública, possa ser sentido como conivência criminosa por parte dos ministros da corte.
Em janeiro de 2024, Vorcaro havia celebrado com o Instituto Lex, representado pela esposa de Moraes, a até então desconhecida e apagada advogada Viviane Barci, um contrato de prestação de serviços do tipo "faz-tudo", com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões.
Vorcaro, tá na cara, não buscava um instituto de lei (lex). Buscava suprema proteção contra a lei. Um crachá virtual de intocável, com a fotografia do ministro Moraes.
O Instituto Lex pertence, depois da saída obrigatória de Moraes para assumir uma cadeira no STF, à sua esposa Barci e aos filhos do casal.
Pelo jeito, grana nunca foi problema para o Instituto Lex, que, além do contrato de R$ 3,6 milhões mensais do banco de Vorcaro, faturava com a arrecadação de direitos autorais dos livros de Moraes. Livros jurídicos de ministros do STF são sempre muito vendidos e recomendados por faculdades de direito.
Sediado em São Paulo, o Lex adquiriu uma luxuosa e valiosa casa e terreno em Brasília. Fala-se numa compra no valor de R$ 20 milhões. Sem constrangimento e sem corar as faces e a calva, Moraes reside nesse imóvel do Lex. A família, dona do Lex, habita na capital paulista, defronte ao clube Pinheiros.
Escapismo e crime de advocacia administrativa
Em 17 de novembro de 2025, em pleno vigor o contrato com o Instituto Lex assinado pela consorte de Moraes em 2024, Vorcaro trocou nove mensagens com destino a Moraes. Teria recebido de volta quatro respostas, segundo publicado pelo jornal O Globo.
Um detalhe: Vorcaro pressentia que seria preso naquele dia no aeroporto de Guarulhos, onde pretendia embarcar em seu próprio jatinho para Dubai, um dos maiores centros de ocultação e lavagem de capitais do planeta.
Pelo teor das mensagens enviadas por Vorcaro, fica claro que o assunto versava sobre explicações da venda do banco Master e busca de orientações e de bloqueio da viagem. Papo com advogado ou conselheiro amigo.
Moraes usa um sistema de comunicação que apaga as mensagens do visor do interlocutor tão logo realizada a leitura. Ou seja, desconhece-se o teor das mensagens respondidas por Moraes.
Evidentemente, haverá necessidade de perícia. A negativa de Moraes, no entanto, vem desmentida por indícios de ilícitos criminais, com lastro de suficiência.
Na nota oficial fica patenteado o escapismo de Moraes. Ele frisou que o objetivo do vazamento de informações mentirosas tem por meta atingir o STF.
Pelo colocado, Moraes sente-se o próprio STF. Confunde-se com o STF, numa terminologia técnico-jurídica.
Moraes chega a lembrar o rei Luís 14, aquele que disse ser ele o próprio Estado: "L'État, c'est moi".
Até o momento existem indicativos fortes de Moraes ter advogado para Vorcaro. Como isso é proibido, a sua conduta, em tese, é criminosa: advocacia administrativa (artigo 321 do Código Penal).
Atenção: um eventual corporativismo dos ministros do STF poderá ser visto como condescendência criminosa, favorecimento.
Não vai dar para o ministro Fux conceder fé pública às condutas de Moraes, como fez com o enrolado Toffoli. Nem Gilmar Mendes arriscará usar a sua influência de dono do Brasil.
Sindona, o banqueiro do Vaticano e da máfia
Como ensinou o dinamitado magistrado italiano antimáfia Giovanni Falcone, a Cosa Nostra usa dos seus aliados influentes na vida política partidária. Quando isso não funciona, passa da intimidação ao assassinato.
Pelo comprovado, Vorcaro usou método mafioso. No particular empregou algumas técnicas mafiosas que marcaram a atuação do banqueiro siciliano Michele Sindona, morto aos 66 anos de idade.
Sindona intimidava e mandava matar. Além de mestre em cooptar pessoas poderosas, ele usava a riqueza para corromper e a ostentação para impressionar.
Vorcaro, como se viu ao determinar a quebra dos dentes do jornalista Lauro Jardim, usou da intimidação e da violência, como o banqueiro Sindona, ambos golpistas esnobes.
A propósito, Sindona mandou matar o advogado Giorgio Ambrosoli, em 1977. Ambrosoli era, em processo de falência de uma das empresas de Sindona, o administrador judicial da massa falida. Acusou Sindona de fraudes falimentares e acabou assassinado.
Michele Sindona encantou, com dinheiro e mulheres, o atlético bispo Paul Marcinkus, jogador de tênis e cultor das artes marciais. Marcinkus era o presidente do banco do Vaticano. Ficou no cargo de 1971 a 1979.
Atenção: formalmente, o banco do Vaticano atendia, à época, pelo eufemístico nome Instituto para Obras de Religião (IOR).
Com Sindona, o banco do Vaticano virou uma concorrida lavanderia internacional. O correntista virava cidadão residente do Estado do Vaticano e tinha a garantia de nunca ser extraditado. Bastava fugir para o Estado do Vaticano.
O papa Paulo 6º foi convencido pelo então bispo Paul Marcinkus a colocar Sindona no Conselho de Administração do IOR.
Sindona, mundo afora, ficou conhecido como o banqueiro do Vaticano e da Máfia. Como Vorcaro, ele acabou preso.
Nos devidos processos, na Justiça italiana, foi condenado à pena de prisão perpétua como mandante de assassinato e pegou mais de 30 anos de cadeia pelas fraudes ao sistema bancário internacional.
Vorcaro ainda está sob custódia cautelar. Não vai mais poder contar com Moraes e Toffoli, pois ficaram enrolados como ele.
Vorcaro está em cárcere duro, reservado a perigosos criminosos. Sindona foi encarcerado no presídio especial italiano de Voghera.
Em Voghera, sob vigilância, tomou o café da manhã e, logo após, faleceu envenenado. No café havia cianeto de potássio.
Além de lavar dinheiro e reciclar o capital lavado do banco do Vaticano (IOR), Sindona promoveu fraudes financeiras.
Sindona — e Vorcaro fez o mesmo — corrompeu políticos. O banqueiro do Vaticano e da Máfia siciliana não conseguiu corromper magistrados, quer na Itália, quer nos EUA. Tinha escritórios em Roma, Palermo e Nova York e usava avião próprio nos deslocamentos.
Do seu escritório em Nova York acertou contrato de financista com a Cosa Nostra americana e a Máfia siciliana. Tudo com a intermediação da conhecida 'famiglia Gambino'.
Parêntese. A "famiglia Gambino" integrava a Cosa Nostra americana. Um dos seus membros funcionava como elo com a Máfia siciliana.
Uma vez obtida a tarefa de lavar e reciclar dinheiro para a Máfia, Sindona começou a incentivar os mafiosos sicilianos a realizarem um antigo sonho: o sonho separatista siciliano. Só com uma peculiaridade: com a secessão e independência da Sicília, a ilha ficaria, de fato, sob o governo da Máfia.
Sindona deu prejuízo financeiro à Máfia siciliana e à Cosa Nostra norte-americana. Quase quebrou o IOR Vaticano.
Marcinkus, seu sócio nas falcatruas, foi protegido pela Igreja. Não morreu com odor de santidade, mas foi promovido a cardeal.
Vorcaro tinha costas-quentes por meio de políticos. E, pelo que tudo indica, mantinha negócios e relações promíscuas com os supremos ministros Moraes e Toffoli.
Sindona também tinha as costas-quentes: era protegido por Lício Gelli, que governava a potentíssima loja maçônica P2.
Outro parêntese: a loja maçônica P2 é apontada por muitos como a responsável pela morte de João Paulo 1º, que teve o pontificado mais breve da história da Igreja: o papa João Paulo 1º descobriu todas as fraudes do banco do Vaticano e foi encontrado morto no seu aposento afrescado pelo grande pintor Raffaello Sanzio.
As apurações judiciais concluíram que Sindona cometeu suicídio. A investigação, no entanto, não conseguiu descobrir quem havia passado o veneno para Sindona, sendo que ele estava blindado, proibido de receber visitas.
Para a Igreja, o papa João Paulo 1º morreu de morte natural, sem autópsia realizada.
O quebrado banqueiro Daniel Vorcaro, que agita o Brasil, compromete a imagem do STF e assusta políticos e dois magistrados da corte.
Vorcaro, que encarnou o espírito mercenário e a violência dos mafiosos, é um aprendiz de Sindona: seu rombo é estimado em R$ 57 bilhões.
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