Mal das contas, cidades gastam mais de R$ 2 bilhões em shows
Mal das contas, cidades gastam mais de R$ 2 bilhões em shows
Em 6 de janeiro de 2025, Romeirinho (Avante), o novo prefeito de Quijingue (BA), cidade a 347 km de Salvador, no território do sisal, publicou um decreto de emergência apontando "descontrole fiscal, orçamentário, financeiro e administrativo da máquina pública".
A cidade acumulava salários atrasados e dívidas com fornecedores. Para conter custos, reduziu o número de médicos e o horário de atendimento nas unidades de saúde, onde faltavam medicamentos básicos. Servidores passaram a protestar.
Apesar dos problemas, a prefeitura decidiu aumentar o investimento em festas.
O município, que possui um dos piores PIBs per capita do Brasil (5.404º lugar entre 5.571 cidades), quadruplicou as despesas com os festejos de São João em 2025. Ampliou também as contratações para a festa de São Sebastião —que contou, em janeiro de 2026, com a dupla Zé Neto e Cristiano por R$ 854 mil.
Quijingue não é um caso isolado. Levantamento feito pelo UOL com dados do PNCP (Portal Nacional de Contratações Públicas) em cidades e estados mostra que 1.074 municípios em situação fiscal problemática gastaram ao menos R$ 2,1 bilhões com cachês de artistas nos últimos dois anos.
O levantamento considera cidades com classificação C ou D na Capag (Capacidade de Pagamento), índice do Tesouro Nacional que avalia a saúde financeira municipal com base no endividamento, na relação entre receitas e despesas e na situação de caixa.
"Quase sempre [as que têm Capag baixo] são cidades mais pobres e com menor desenvolvimento humano. Deveria se investir mais no ensino e na assistência em saúde. Nada contra a cultura, mas investimento em saúde e educação básica dá mais resultados para cidades nessa situação", diz o economista José Roberto Affonso.
Os gastos reais tendem a ser significativamente maiores do que os R$ 2,1 bilhões identificados no levantamento, feito com o auxílio da ONG Transparência Brasil. Há uma série de lacunas nas informações do PNCP. Leia aqui como foi feito o levantamento.
"Foi um choque quando vimos as contratações de shows. O município é caloteiro e mesmo assim gasta milhões com artistas. Não somos contra as festas, mas primeiro paguem os trabalhadores", reclama Edenilson Soares, presidente do sindicato dos servidores de Quijingue.
O dirigente sindical afirma que, mesmo após a prefeitura gastar cerca de R$ 10 milhões em shows desde o início de 2025, muitos servidores seguem com os salários atrasados. O sindicato cobra o pagamento por meio de uma ação na Justiça e a prefeitura tenta um acordo.
Procurada pela reportagem, a administração municipal não se manifestou até a publicação deste texto.
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