menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Nem na própria ilha onde nasceu Napoleão é o maior herói

11 0
02.03.2026

Nem na própria ilha onde nasceu Napoleão é o maior herói

42º18'N, 9º09'LEstátua de Pasquale PaoliCorte, Córsega, França

Hoje, afirmar que Napoleão era francês soa como um fato consumado, algo tão batido quanto George Washington ser americano. Mas por trás dessa cortina de obviedade há uma realidade mais complexa.

Já parou para pensar que "Bonaparte" é um sobrenome que não soa muito francês, mas italiano? Pois é.

Josias de SouzaExibição de força no Irã expõe fraqueza de Trump

Exibição de força no Irã expõe fraqueza de Trump

Alicia KleinPalmeiras chega à final para evitar replay de zebra

Palmeiras chega à final para evitar replay de zebra

Juca KfouriGanso ensina como se bate pênaltis e classifica o Flu

Ganso ensina como se bate pênaltis e classifica o Flu

Mauro CezarConflito com Irã aumenta tensão pré-Copa nos EUA

Conflito com Irã aumenta tensão pré-Copa nos EUA

Napoleão nasceu em agosto de 1769 na ilha da Córsega. Até apenas dois meses antes, essa grande ilha do Mediterrâneo não pertencia à França, mas à República de Gênova.

Por quase 500 anos, os genoveses governaram a Córsega. Mas, decadente, a outrora poderosa república, que chegou a rivalizar com Veneza no comércio marítimo, não tinha mais como lidar com o poderio crescente da França.

Foi nesse contexto turbulento que nasceu Napoleão. E, mais importante ainda, foi esse o contexto da vida do grande herói da Córsega, Pasquale Paoli.

Com 8,7 mil quilômetros quadrados e um interior montanhoso, a Córsega sempre foi um território difícil de domar. No século 18, Gênova não controlava muito mais do que algumas cidades da costa.

Pasquale Paoli tinha dez anos quando viu seu pai, Giacinto, liderar uma revolta contra os genoveses em 1735. O movimento foi esmagado quatro anos depois, e Giacinto foi para o exílio em Nápoles, reino que então ocupava todo o centro-sul da Itália (com exceção da Sicília).

O jovem Pasquale o acompanhou, e a experiência napolitana o expôs aos ideais do Iluminismo. Em 1741, sob o comando do próprio pai, ele entrou no regimento corso do Exército Real Napolitano.

Pasquale Paoli só retornaria a sua ilha aos 30 anos. Em 1755, igual ao pai, ele comandou uma nova rebelião contra os genoveses. Diferente do pai, conseguiu vencer.

Paoli expulsou os genoveses, que mantiveram apenas algumas guarnições na costa. Eram insuficientes para exercer qualquer controle, e assim a Córsega declarou independência naquele ano.

A nova república e seu líder viraram uma sensação internacional, segundo o historiador Dale Pappas, especializado na Idade Moderna europeia, em um artigo no site "The Collector". Paoli virou uma espécie de herói do Iluminismo: batizou uma localidade na Pensilvânia, na então América Britânica, e mais tarde inspiraria os líderes da independência dos Estados Unidos.

Ainda em 1755, a Córsega ganhou uma Constituição, uma das primeiras a dar direitos relativamente amplos às mulheres. Mas o poder ainda ficava bastante concentrado nas mãos de Paoli, que era visto como "u babbu di a patria", explica Pappas.

A cidade de Corte, com seu fotogênico casario medieval no alto de uma colina, foi decretada capital do novo país. Até hoje, ela é tida como o coração da identidade da Córsega.

Mas o "pai da pátria" precisou lutar para manter a liberdade da Córsega. Em 1764, Gênova se aliou ao Reino da França. Quatro anos depois, na pindaíba, vendeu aos franceses os direitos que ainda acreditava ter sobre a ilha.

Uma coisa era a Córsega resistir às investidas dos genoveses, uma república que vivera seu auge mais de 200 anos antes. Outra era enfrentar uma potência imperialista e agressiva como a França.

Em 1768, os corsos até conseguiram uma improvável vitória. Mas, já no ano seguinte, não tinham mais como aguentar. Em 1769, a Batalha de Ponte Novu marcou a derrota.

A República da Córsega chegou ao fim. A ilha, como um país independente, durou apenas 14 anos.

Paoli e seus seguidores mais próximos foram para o exílio em Londres. O Reino da Grã-Bretanha, como bom "amigo dos inimigos do meu inimigo", providenciou uma pensão a Paoli.

Mas nem todo mundo seguiu o líder rebelde. Houve quem preferiu ver a Córsega sob domínio francês.

Entre eles estavam Carlo e Letícia Bonaparte. Quando confrontado com a necessidade de decidir a quem se declarava fiel, o casal preferiu o rei da França, Luís 16, em vez de Paoli.

Letícia tinha laços com o governo francês da ilha, o que ajudou a família a galgar posições na pirâmide social corsa. Graças a esses contatos, seus filhos tiveram acesso a uma sólida educação na França.

Quando a Revolução Francesa estourou, em 1789, os irmãos Bonaparte tiveram participação ativa, abrindo caminho para a ascensão meteórica do segundo mais velho deles, Napoleão. Em 1790, a Assembleia Nacional reconheceu a Córsega como um departamento francês.

Por isso, Paoli via os irmãos como filhos de colaboracionistas. Napoleão, para ele, não era digno de confiança.

Ainda assim, Paoli aprovava alguns aspectos da Revolução Francesa. Porém, em 1793, com a radicalização do chamado Reino do Terror, ele e seus seguidores se tornaram francos opositores.

Paoli reprovou a execução de Luís 16 e o poder dos radicais jacobinos. Já Napoleão era, à época, um defensor da causa jacobina.

De volta à Córsega, Paoli liderou a resistência e impediu que os franceses tomassem seus fortes. Napoleão investiu contra a cidadela de Ajaccio (onde ele nascera), mas fracassou.

Ainda em 1793, um frustrado Bonaparte escreveu um artigo condenando seu antigo ídolo Paoli. Apesar de estarem em campos opostos e de seus pais terem escolhido se aliar aos franceses, Napoleão admirava a liderança e o espírito nacionalista do líder corso.

Semanas depois, os Bonaparte abandonaram a Córsega. Foram para a França, enquanto uma multidão fiel a Paoli saqueou a casa da família.

O nacionalismo de Paoli ficou mais pragmático com a experiência em batalhas. Em vez de se lançar em uma nova aventura republicana como país independente, ele convidou os britânicos a se apossarem da ilha.

Em julho de 1793, Paoli já havia proclamado George 3º rei da Córsega. Os britânicos chegaram para sacramentar a posse.

Mas a presença britânica durou ainda menos, bem menos, do que o período da Córsega como país independente. Já em 1796, os franceses expulsaram os inimigos da ilha.

Paoli deixou a Córsega mais uma vez. Agora, era seu exílio definitivo. Ele morreu em Londres, em 1807.

Porém, recuperar o controle sobre a Córsega não parece ter exercido muita influência na trajetória de Napoleão. Pelo menos no que diz respeito à presença física dele na ilha onde nasceu.

Bonaparte voltou à Córsega apenas uma vez. Fez uma breve visita em sua viagem de retorno da campanha do Egito, em 1799.

Depois disso, virou cônsul, imperador, mergulhou a Europa em guerra, mudou os rumos de dezenas de países no mundo todo, ganhou e perdeu batalhas épicas, abdicou do trono, se exilou, retornou triunfante, amargou sua derrota definitiva, foi enviado para uma prisão no meio do Atlântico e morreu. Mas nada de uma passadinha na Córsega.

Também por isso, a imagem de Napoleão na Córsega é controversa. Não é o caso de Paoli. No centenário da Revolução Francesa, em 1889, os restos mortais do herói corso retornaram à ilha. Estão até hoje em uma tumba em Morosaglia, sua cidade natal.

Já Napoleão, por simbolizar o imperialismo francês e por ter, segundo alguns críticos corsos, negligenciado suas origens, não instiga a mesma consideração. A não ser em Ajaccio.

Cidade costeira de menor importância quando ele nasceu, Ajaccio virou, sob suas ordens, a capital e maior cidade do departamento da Córsega do Sul. Lá, Napoleão é visto de maneira mais positiva, segundo a "National Geographic".

A Córsega tem um perfume especial. Uma mistura de alecrim, sálvia e immortelle, uma flor dourada de prestígio na perfumaria, domina a ilha, descreve a reportagem.

Napoleão, no exílio final em Santa Helena, sentia falta disso. Ele teria mencionado, com saudade, os aromas da Córsega.

Isso talvez indicaria que ele não fez tão pouco caso assim de sua terra natal como apontam os críticos. Mas não foi o suficiente para a ilha se sentir integralmente parte da França.

O movimento separatista pode estar mais pacificado do que em outras épocas, mas ele nunca deixou de existir. Em 2022, protestos violentos tomaram a ilha após um líder nacionalista ter sido morto na prisão.

Não é raro ver placas vandalizadas nas estradas. Especialmente aquelas em que os nomes corsos estão traduzidos para francês.

Na cidade de Bonifacio, uma bienal de arte contemporânea, em 2024, tratou do tema à sua maneira. A mostra começava com uma tela gigante de Napoleão, trajado com o manto de arminho (animal cuja pele era muito valorizada) da coroação.

O nome da exposição era "A Queda dos Impérios".

Se você gosta dos temas e textos que trago aqui no Terra à Vista, assine minha newsletter, com assuntos históricos de um jeito leve e surpreendente. Nos vemos lá!

Índice de histórias da coluna Terra à Vista:

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

Palmeiras controla o São Paulo em jogo com erros claros de arbitragem

Explosão abre cratera na Rua da Consolação, no centro de São Paulo

'Uma história de amor': Diogo Nogueira homenageia Paolla Oliveira em show

Novorizontino x Palmeiras: final do Paulistão será decidida no interior

Palmeiras vence São Paulo em jogo com polêmica sobre pênaltis e vai à final


© UOL