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A neurocientista assiste às Olimpíadas de Inverno

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13.02.2026

Suzana Herculano-Houzel

Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)

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A neurocientista assiste às Olimpíadas de Inverno

A vida não precisa de cérebro, mas que coisas maravilhosas fazemos com ele

Quem mais se diverte nas Olimpíadas não é um atleta

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Nos meus 20 anos de colunista da Folha já devo ter escrito umas quatro colunas inspiradas pelos Jogos Olímpicos de Inverno, que eu adoro assistir. Primeiro, porque costumam coincidir com o Carnaval, quando eu me escondo da barulheira e do excesso de tudo no Brasil e da friaca nos EUA. E segundo, porque eu não perco a oportunidade de assistir a desempenho de elite. Acho sensacional o que humanos conseguem se ensinar a fazer quando têm tempo e energia disponíveis, mais muita, muita motivação para chegar lá.

Desta vez, as Olimpíadas me pegam em plena discussão com meus alunos sobre se animais precisam ter um cérebro para se mexer. Uma opinião popular fora da minha sala de aula (e lá vem a polícia de plantão...) é que cérebros evoluíram para facilitar movimentos complexos. O neurocientista Daniel Wolpert tem um Ted Talk muito interessante sobre o assunto. Pena que sofre de um problema comum: chauvinismo mamífero.

Em meu curso, acabamos de passar duas semanas analisando o comportamento de 27 grupos de animais cobrindo toda a nossa árvore evolutiva, 24 dos quais não têm nem sombra de cérebro; têm uns gânglios, e olhe lá. O extremo absoluto de fato é imóvel: são as esponjas, que tudo o que fazem é circular água para dentro do seu tubo e, quando muito, "espirrar" muito lenta e delicadamente, botando o lixo para fora, usando uns quase-neurônios isolados aqui e ali.

No outro extremo, temos o animal humano, com 16 bilhões de neurônios no córtex cerebral, que resolve se equilibrar no gelo ou neve sobre palitinhos de madeira, pranchas de carbono ou lâminas de aço e desafiar a gravidade dando saltos quádruplos e cinco mortais e meio retorcidos na cara dela só porque pode.

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O "só porque pode" é a parte mais importante. Tirando os olhos do próprio umbigo para apreciar todas as outras formas de vida animal no planeta, meus alunos estão descobrindo que a vida vai muito bem sem um cérebro, obrigada. Águas-vivas têm só alguns poucos milhares de neurônios na superfície do corpo, mas são tão profícuas em se reproduzir às custas de comer o que lhes cai nos tentáculos que causam surtos de alforrecas (em português de Portugal, não é bonitinho?).

Com também só alguns milhares de neurônios, planárias dão um show de proficiência no que fazem: comem inteirinhas outras planárias e até lesmas que derem bobeira, engolindo-as feito jiboias fazem, apesar de só terem um milésimo do número de neurônios.

E abelhas, que têm cérebro, mas só uma fração de um milhão de neurônios nele, movem-se com precisão em três dimensões. Vai realmente dizer que nosso cérebro enorme evoluiu "para" a gente competir Olimpíadas, Wolpert?

Defendo que o contrário é muito mais provável: quem tem muitos neurônios, que evoluem não por necessidade, mas porque há energia disponível, ganha, sim, mais possibilidades de ação e também mais flexibilidade para fazer coisas diferentes. Não precisa, mas já que tem, usa. Aí dá para dividir funções com outros na sua comunidade e ir se super-especializar em saltos mortais sobre palitinhos, por exemplo.

E também dá para ir só observar e aprender, como faz quem me parece estar se divertindo mais que todo mundo nestas Olimpíadas: o músico Snoop Dog, contratado da NBC nos EUA para passear pelos bastidores e contar as coisas interessantes que ele vê. Ah se eles quisessem uma neurocientista...

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