Multidão consciente da loucura
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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Multidão consciente da loucura
Crônica de Dante Milano sobre o Carnaval carioca dos anos 1930 evoca a folia de hoje
'Quem não quiser brincar fique em casa', diz ele. 'Somos todos loucos. Os loucos têm razão'
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"Nosso povo tem o seu dia. Não é o 13 de Maio, nem o 14 de Julho. É o Carnaval. Bombos, pandeiros, chocalhos, cuícas, violões, flautas, clarins. Montões de serpentinas e confetes rolando pelas ruas. Tem-se a impressão de que o dinheiro rola pelo chão. O povo respira livre.
"Passa um cordão no meio do povo. O tampo rotundo do bombo retumba, cuícas catucando um batecum macambúzio de macumba. Giros lentos de estandartes, bamboleios de lanternas de cor. Mirabolante, bombástico, babélico, umbilical. Homens de todas as cores entoam cantos em coro. As mulheres são princesas encantadas, pedaços de luz, de corpos nus. Virgens, sambai! A rua parece a enchente de um rio. A multidão se comprime. O momento é sublime. O povo é uma só onda, um só rumor. Encontros, apertões. Quem não quiser brincar fique em casa.
"Toda uma multidão consciente da sua loucura. Quem quiser, acredite na razão, eu acho que somos todos loucos. Os loucos têm razão. Viva o Carnaval! Vejo um menino chorando perdido dos pais no meio da multidão. Por que me perdi nesse mundo? Aproxima-se uma grande procissão luminosa, lentamente, num passo monumental de mastodontes. Antochas, fachos, penachos, plumagens, fogaréus. Será preciso suspender os fios de eletricidade para dar passagem ao carro colossal. Besta apocalíptica, mostrando os dentes cruéis, acesos por dentro com luzes vermelhas. É a Caverna do Inferno, onde impera o Demônio-Mulher, sentada num trono, no cimo do carro, a mão esquerda segurando um tridente e a direita distribuindo beijos à população carioca.
"Brasileiros, vocês hão de ter saudades do Carnaval. Filhos de brasileiros, vocês hão de ter uma saudade atávica do Carnaval, na era longínqua em que ele não for mais que uma página bárbara, um samba infernal, na noite imemorial do tempo extinto."
Bonito, não? Mas não é meu, quem me dera. São trechos de "Filmagem do Carnaval Noturno", de Dante Milano, cena da folia carioca dos anos 1930, publicada no Correio da Manhã de 15 de fevereiro de 1942, domingo de Carnaval.
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