Warner + Paramount: como a fusão afeta o que você assiste
Warner + Paramount: como a fusão afeta o que você assiste
A disputa pela Warner Bros. Discovery terminou, mas os efeitos estão só começando. Agora vem a pergunta que realmente importa: o que a fusão dessa gigante do entretenimento com a Paramount Skydance muda para quem assiste — e para o ambiente político?
Se o negócio avançar como previsto nos próximos meses, um único grupo passará a reunir marcas como MTV, CBS, CNN, Nickelodeon, HBO, Showtime e DC, além de franquias como "Friends", "Harry Potter", "Batman", "Star Trek", "Missão: Impossível", "Transformers" e "Bob Esponja".
Na prática, isso significa menos concorrentes disputando audiência e mais concentração de catálogo e poder sob o mesmo comando. Para o público, o impacto pode vir na forma de preços, reorganização de plataformas e mudanças no que chega — ou deixa de chegar — às telas.
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A seguir, os principais pontos de impacto dessa aquisição.
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Paramount+ e HBO Max juntos?
Streaming deve ser o aspecto mais visível dessa transformação.
Na visão de seus controladores, a fusão é em grande parte motivada pela necessidade de ganhar escala para concorrer com Netflix, YouTube, TikTok e outros players nesta segunda guerra do streaming.
Por isso, David Ellison, CEO da Paramount Skydance, afirmou em conferência com os investidores de Wall Street nesta segunda, 2, que irá combinar as infraestruturas técnicas de Paramount+ e HBO Max (que é da Warner Bros. Discovery).
"Acreditamos que a oferta combinada, considerando o volume de conteúdo e o que podemos fazer do lado tecnológico, realmente nos colocará em posição de competir com os players de maior escala no mercado direto ao consumidor", complementou o executivo.
Não está claro o que Ellison quer dizer com "oferta combinada". Pode representar um único serviço, ou ainda um combo em que ambos são oferecidos com descontos — como a Disney fez na América Latina por algum tempo com Disney+ e Star+.
"Há mais de 200 milhões de assinantes hoje, em mais de 100 países e territórios ao redor do mundo, o que nos posiciona para competir de forma eficaz com os principais serviços de streaming no mercado atual", também comentou.
A Netflix, vale pontuar, conta hoje com 325 milhões de contas.
Contudo, a questão é muito mais profunda do que superar concorrentes. A audiência no vídeo online está fragmentada e dividida entre diversas plataformas. Além disso, a maioria dos serviços de vídeo por assinatura possui uma alta taxa de churn, ou seja, com muitos cancelamentos.
Um "Paramount+HBO Max" traz, por si só, um catálogo em potencial enorme, com um grande número de filmes e séries clássicas, que vão desde "O Poderoso Chefão" a trilogia "O Senhor dos Anéis". Além disso, é possível expandir a produção de originais com essas propriedades intelectuais, colocando derivados de "Jornada nas Estrelas" e a futura nova série de "Harry Potter" em um só lugar.
Para os fãs de esportes, a notícia é boa. A HBO Max, por meio da TNT Sports, tem os direitos de transmissão de futebol como o Campeonato Paulista e a UEFA Champions League masculinas, enquanto o Paramount+ começou a exibir de forma exclusiva o UFC em 2026, além de ter algumas partidas da Conmebol Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana.
A tecnologia também pode melhorar. O novo proprietário, David, é filho de Larry Ellison, um dos homens mais ricos do mundo e fundador da Oracle, uma gigante da tecnologia. Há alguns meses, o CEO da Paramount Skydance fala sobre melhorias no streaming do grupo — algo que também terá o potencial para fazer na HBO Max.
Contudo, menos concorrência também pode significar preços mais altos para o consumidor. De certa forma, o público brasileiro já está começando a sentir esses efeitos — ainda que por outros motivos. É que o Paramount+ anunciou um reajuste de preços em fevereiro, com o plano mensal subindo 75,83%: foi de R$ 19,90 para R$ 34,90.
Hoje, o HBO Max custa R$ 29,90 no plano Básico com Anúncios, ou R$ 44,90 no Standard.
Lançamentos nos cinemas
Uma das grandes preocupações da indústria, caso a Netflix comprasse a Warner Bros., era o quanto a pioneira do streaming estava comprometida em manter os lançamentos do estúdio nos cinemas. Com a Paramount, a dúvida acaba.
David Ellison já se comprometeu com ao menos 30 estreias anuais nessa janela de exploração, sendo 15 de cada estúdio — algo alinhado com o que vem sendo feito nos últimos anos.
Combinados, os dois estúdios somam 27% do market share da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. A Disney, primeira colocada, conta com 28% do mercado.
Nós realmente acreditamos que os filmes devem ser vistos nos cinemas e ainda entendemos que esse é um dos lugares mais importantes para criar propriedade intelectual de longo prazo. Televisão é um negócio completamente diferente. David Ellison, CEO da Paramount Skydance, em conferência com investidores
Essas produções deverão seguir a lógica que se tornou o padrão de mercado no pós-pandemia: depois do tempo de exclusividade na tela grande, de cerca de 45 dias, os longas-metragens são lançados em plataforma de vídeo sob demanda para aluguel ou compra. Depois, vão chegar ao streaming por assinatura do grupo — seja o nome que ele tiver.
TV paga continua existindo -- por enquanto
Uma das grandes divisões da Warner Bros. Discovery adquiridas é justamente a de canais pagos — que, se não fosse a fusão, teria sido separada em uma companhia independente.
"Acreditamos nos ativos que estamos adquirindo e, neste momento, não há planos de vender ou desmembrar um pacote de ativos de TV a cabo", afirmou o chefe de operações e de estratégia da Paramount, Andy Gordon. "Entendemos que, considerando as marcas que a Warner Bros. está trazendo para a Paramount, existem muitas oportunidades para pensar em todos os diferentes aspectos do que elas podem fazer, tanto no lado linear quanto no digital."
Acreditamos que muitos dos nossos canais lineares têm marcas incríveis que podem ser revitalizadas para um mundo de streaming e digital. Andy Gordon, COO da Paramount Skydance
Ou seja, nas entrelinhas, o executivo deixa pistas de que marcas como Cartoon Network, TNT, Discovery Channel, Discovery Home+Health e TBS podem ser repensadas para o mundo de hoje. Porém, o futuro linear pode sim estar em risco — ao menos aqui no Brasil.
Em nosso país e em outros mercados, a Paramount encerrou em dezembro as transmissões de todos os seus canais pagos, incluindo MTV, Nickelodeon e Comedy Central. Por isso, é possível conjecturar que os sinais herdados da Warner Bros. Discovery possam ter, em algum momento, o mesmo destino.
Caso isso aconteça, será um duro golpe para o que ainda resta da TV por assinatura no território brasileiro.
Ao menos uma coisa está garantida: a HBO continuará exatamente como está, promete David Ellison — seja como canal linear, seja como iniciativa no streaming. De lá vieram sucessos como "Game of Thrones" e "The Last of Us".
"Casey [Bloys, CEO da divisão] e sua equipe estão fazendo um trabalho absolutamente notável na HBO e planejamos que ela possa operar com independência, para que a HBO possa, francamente, continuar fazendo aquilo que faz de forma excepcional", afirmou Ellison.
Nosso ponto de vista é que a HBO deve continuar sendo HBO. Ela é uma líder no setor e queremos apenas que continue fazendo ainda mais do que já faz, mas, ao unir as plataformas, todo o nosso conteúdo poderá alcançar um público ainda mais amplo. David Ellison
Menos conteúdo e risco criativo
Ainda que os novos donos tenham garantido um número mínimo de lançamentos na telona, a dúvida para o médio e longo prazos é muito maior.
O exemplo a não ser seguido é o da Disney, que há alguns anos comprou a Fox. Hoje, a famosa 20th Century Fox, rebatizada como 20th Century Studios, existe quase que exclusivamente como um selo — e Hollywood perdeu uma de suas seis majors.
O novo conglomerado também terá diversas iniciativas similares em seu portfólio — só de grandes estúdios de televisão são três: CBS Studios, Paramount Television Studios e Warner Bros. Television Studios. A tendência, com o tempo, é que as iniciativas sejam consolidadas — ou, ao menos, parem de competir diretamente uma com a outra.
Para o espectador, isso pode se traduzir em uma menor diversidade de projetos e vozes, além de priorizarem propriedades intelectuais reconhecíveis em detrimento das novas ideias.
Ou seja, teremos mais produções bombásticas — talvez até com grandes orçamentos — baseadas em personagens e marcas famosas, mas menos experimentação e novidade.
Menos empregos e mais demissões
Como bem definiu a revista Variety, em fusões de grandes estúdios normalmente um mais um é igual a um. Afinal, menos lançamentos e consolidações podem resultar em menos empregos na indústria criativa.
É questão de sobrevivência, inclusive: Paramount Skydance e Warner Bros. Discovery, combinadas, terão uma dívida líquida astronômica, de US$ 79 bilhões.
O discurso oficial é que US$ 6 bilhões deverão ser economizados com sinergias. O número, no entanto, pode ser ainda maior.
"Estávamos com os livros da Warner Bros. e os maiores centros de custo são as pessoas nas produções. Haverá cortes de mais de US$ 16 bilhões", afirmou Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, em uma entrevista à Bloomberg nesta segunda.
Nos bastidores, essa movimentação alimenta rumores de demissões em massa. O exemplo, afinal, está fresco na memória.
A Skydance de David Ellison comprou a Paramount no ano passado e, logo após a fusão, promoveu um corte de cerca de 10% na força de trabalho. Segundo a mesma Variety, divisões como o Showtime ficaram "no osso".
Contudo, o executivo procurou acalmar os rumores sobre algo parecido ocorrendo na Warner Bros. Discovery. "É importante destacar que a maior parte da nossa meta de sinergias vem de fontes não relacionadas à mão de obra, entre as eficiências que identificamos", afirmou Ellison nesta segunda.
O certo é que os dois conglomerados possuem negócios quase iguais — e muita gente deve ver o seu trabalho se tornando redundante na nova estrutura.
Jornalismo e política
Uma das joias da coroa da WBD é a CNN. Porém, o tradicional canal de notícias norte-americano vem sofrendo com a queda de assinaturas e a falta de rumo no ambiente digital.
A CNN é, também, uma das principais críticas ao governo de Donald Trump — e o presidente apoiou publicamente a compra da Warner pela Paramount. Ele, inclusive, é amigo pessoal dos Ellisons.
Uma das possibilidades é que os novos proprietários façam o canal "virar à direita" — algo que também tem base em acontecimentos recentes. Como parte da compra da Paramount, os bilionários assumiram a emissora norte-americana CBS e a sua divisão de notícias, a CBS News — para a qual contrataram a conservadora Bari Weiss para o posto de editora-chefe.
Weiss, inclusive, vem sendo criticada internamente na redação e por alguns setores da sociedade norte-americana por suas ações, incluindo mudanças no direcionamento do tradicional programa "60 Minutes".
Lachlan Murdoch, CEO da Fox Corp. — que é a dona do canal de notícias Fox News, um apoiador de primeira hora de Trump — já vê a futura nova CNN como uma competidora.
"Sob o comando dos Ellison, a CNN obviamente será uma concorrente forte, como era de se esperar. Mas gostamos de concorrência e já provamos ao longo de muitos anos que conseguimos competir — administrar uma operação de notícias é algo difícil", afirmou Lachlan, que é filho de Rupert Murdoch, em uma conferência do banco Morgan Stanley.
Em novembro acontecem as chamadas "midterms", que são as eleições de meio de mandato — responsáveis por renovar toda a Câmara dos EUA e um terço do Senado. Além disso, 34 dos 50 estados elegem governadores no período.
Hoje, a previsão é que Trump perca a maioria do congresso — e ter a CNN ao seu lado antes disso poderia representar um trunfo político.
Vale lembrar que pouco deve mudar no nosso país: a CNN Brasil é operada pela Novus Mídia, de Rubens Menin, que possui um acordo de licenciamento da marca.
Por outro lado, pouco deve mudar para a derrotada no leilão: a Netflix. Contudo, algumas lições foram aprendidas.
Para a Bloomberg, Ted Sarandos comentou que o diálogo aberto com os exibidores foi positivo, e que isso deve continuar. "Descobrimos algumas coisas realmente criativas para fazermos juntos, como você viu com 'Stranger Things' e 'Guerreiras do K-Pop' [com exibições pontuais na telona]. [O começo da segunda temporada de] 'One Piece' será lançado nos cinemas na próxima semana nos EUA e no Japão. Acho que vamos encontrar um monte de coisas legais para fazermos juntos daqui para frente. Eu consigo nos ver fazendo coisas que nunca fizemos antes."
Hoje, tanto a Paramount quanto a Warner Bros. fornecem conteúdos de catálogo para a Netflix — incluindo títulos como "Smallville", "O Poderoso Chefão" e "Batman Begins". Para Sarandos, o desgaste da negociação não deve mudar isso. "Se eles estão seis ou sete vezes alavancados, precisam ganhar algum dinheiro, e nós somos compradores. Portanto, não imagino que isso seja um problema."
Por fim, sem o acesso ao enorme banco de propriedades intelectuais da Warner Bros., que vai de "Looney Tunes" a "Big Bang Theory", a pioneira do streaming precisará continuar investindo em criar suas próprias franquias — o que tem sido um trabalho de tentativa e erro.
Tudo isso, claro, se a aquisição for aprovada pelos órgãos responsáveis nos Estados Unidos e no resto do mundo, por exemplo.
A tendência é que a proximidade dos Ellisons com Donald Trump — que tem um perfil personalista — facilite o caminho doméstico. A Oracle, por exemplo, integra a estrutura criada para operar o TikTok nos EUA após a exigência legal de desinvestimento imposta à ByteDance pelo governo americano. Mas nada é garantido.
Em setores onde exista concentração de mercado, o grupo pode ser obrigado a se desfazer de algum negócio — mantendo não só a diversidade de opções para o consumidor final, mas também compradores para produções. Um exemplo é Showtime e HBO, que se sobrepõem.
Seria até curioso ver a Netflix, por exemplo, comprando a própria HBO — um ativo que eles nunca esconderam desejar.
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