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Amazônia não está à venda: as lutas indígenas para adiar o fim do mundo

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27.02.2026

Amazônia não está à venda: as lutas indígenas para adiar o fim do mundo

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Nas últimas semanas, cerca de 14 povos indígenas da região de Santarém (PA) se mobilizaram num levante em defesa do rio Tapajós. Foram mais de 700 pessoas acampadas em frente ao Terminal da Cargill, multinacional estadunidense, exigindo a revogação do Decreto Federal n.º 12.600/2025.

A luta pela revogação do decreto com os/as indígenas ocupando o porto em Santarém também deu frutos, e ele foi revogado nesta segunda (23).

Este decreto incluiu as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Isto abriu margem para a privatização, uma vez que o Estado repassaria a empresas, como a Cargill, o controle sobre a gestão e manutenção dessas hidrovias, afetando drasticamente a vida das populações locais.

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Moradas ancestrais de diversos povos indígenas, esses rios-territórios têm sido alvo de políticas de "desenvolvimento" e "integração" para a Amazônia, que não escutam as comunidades.

A dragagem do rio Tapajós, por exemplo, também foi autorizada sem consulta prévia, ferindo protocolos nacionais e internacionais, que asseguram os direitos de povos indígenas e populações tradicionais. E ela foi suspensa pelo governo federal graças à essa intensa mobilização, além de sua repercussão nacional e internacional.

Antes da revogação do decreto, as tensões escalaram na região, com maior presença de agentes da segurança pública (polícia militar e federal, por exemplo) para lidar com a situação e reprimi-la. Os agentes foram mobilizados pela Comissão Estadual de Segurança Pública nos Portos, Terminais e Vias Navegáveis no Estado do Pará (Cesportos-PA).

Durante a COP 30 em Belém, lideranças indígenas e outros movimentos realizaram protestos que denunciavam as ações predatórias que iam (e ainda vão) de encontro a esforços globais e locais para frear a crise climática.

Mas a sustentabilidade "para gringo ver" dita a ordem das preocupações do dia. E ela deixa em desamparo as pessoas e comunidades que protegem a vida e cuidam do bem viver neste planeta.

Resistências indígenas na história recente da Amazônia

Não é a primeira vez, em nosso tempo presente, que povos indígenas se confrontam com poderes - aparentemente - imbatíveis.

Na década de 1980, foram os Sateré-Mawé, da Terra Indígena Andirá-Marau, no Amazonas, que enfrentaram uma empresa petrolífera francesa, a Elf Alquitaine. Os indígenas deram um ultimato à empresa que foi destaque na Folha de São Paulo: ou ela deixava o território ou seria expulsa.

Depois de causar imenso dano ambiental, sem achados expressivos e enfrentando a forte resistência dos Sateré-Mawé, a empresa saiu da base Mamuru.

Outro exemplo foi em 1989, com o conhecido enfrentamento dos Kayapó contra a Eletronorte, eternizado na imagem épica de Tuíre Kayapó com o facão no rosto do então diretor da empresa, responsável pela construção da usina de Belo Monte. É certo que a usina acabou sendo construída alterando, de forma drástica, a vida no rio Xingu, mas aquele " fim do mundo" foi adiado por mais de três décadas.

Belo Monte, finalizada em 2019, continua ainda hoje sendo objeto de intensa disputa política e com desdobramentos jurídicos para defesa dos direitos indígenas. Uma decisão do STF, de 2025, reconheceu que os povos afetados pelo desastre de Belo Monte têm direito a reparação financeira de diversas modalidades, entre elas, a participação nos lucros da hidrelétrica.

Há inúmeros outros exemplos: a forte resistência dos Waimiri-Atroari contra a Hidrelétrica de Balbina no Amazonas; a luta dos Apurinã para enfrentar os impactos da construção da BR-317 sobre seus territórios; a ocupação indígena da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC-PA), para assegurar o direito à educação diferenciada em seus territórios.

A lista pode ser ainda mais longa porque o "fim do mundo" é algo real e permanente na vida de povos indígenas e quilombolas nesse país.

A luta pela vida no Tapajós segue firme

A ocupação indígena em defesa do rio Tapajós continua. A presença da polícia não intimida os manifestantes. Eles sabem que isto é um recurso do Estado para fazê-los recuar em suas legítimas reivindicações. Mas a História não nos deixa esquecer como os povos indígenas têm enfrentado inimigos de alto calibre para assegurar seus direitos.

É a "crônica da morte anunciada" para atender aos anseios do agro capitalismo global.

Nisso, a expropriação e a violência avançam sobre o direito de populações que, há muito tempo, vêm transformando suas existências na única expressão possível do direito de existir agora e em algum tipo de futuro, sobretudo na Amazônia.

Como disse Ailton Krenak, intelectual indígena e integrante da Academia Brasileira de Letras, é preciso adiar o fim do mundo para contar mais histórias.

E é isso que os povos indígenas têm se empenhado em fazer. O levante do Tapajós é mais um episódio dessa guerra sem fim.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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