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China põe fim à guerra de preços baixos de carros, e Brasil pode se dar bem

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20.02.2026

China põe fim à guerra de preços baixos de carros e Brasil pode se dar bem

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Depois de anos assistindo a uma disputa cada vez mais agressiva por preço entre montadoras locais, o governo chinês decidiu intervir. Novas diretrizes divulgadas pelas autoridades regulatórias proíbem oficialmente a venda de veículos abaixo do "custo total" de produção e prometem punições para práticas consideradas desleais, como descontos predatórios e pressão excessiva sobre concessionárias.

A decisão ocorre em um momento delicado. Em janeiro de 2026, as vendas de carros de passeio na China caíram quase 20% na comparação com o ano anterior. O recuo acontece justamente em um mercado que vinha sendo sustentado por promoções agressivas, margens comprimidas e uma guerra declarada por participação, o famoso market share.

O pano de fundo não é novo. A China produziu mais de 34,7 milhões de veículos em 2025 e tem capacidade instalada para fabricar praticamente o dobro disso. O mercado interno absorve cerca de 27 milhões de unidades por ano, o que significa mais de 7 milhões de veículos destinados à exportação. O cenário é parecido há algum tempo.

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Durante anos, governos locais incentivaram a abertura de fábricas, especialmente de veículos eletrificados, com subsídios, terrenos e benefícios fiscais. A meta era ganhar escala global rapidamente. A lucratividade ficava em segundo plano.

Quando a demanda interna desacelerou, o preço virou o principal instrumento de ajuste.

Mais produção do que demanda

Para o consultor automotivo Milad Kalume, o problema estrutural está justamente nesse descompasso entre produção e mercado. "Entendo que exista um problema na China que diz respeito a uma capacidade produtiva maior do que a demanda. Isto não é recente e levou a China a ampliar seus horizontes exportando seus produtos para outros mercados nos últimos anos. Acontece que numa eventual alta dos estoques é combatida pela diminuição dos preços para que ocorra vazão da produção."

Segundo ele, o incentivo à escala ajuda a entender por que a produção não desacelera na mesma velocidade que a demanda. "Em paralelo existem incentivos de ordem político governamental para que a China tenha ganho de escala em nível global, pressionando as fabricantes globais por produção. Então se de um lado existe uma demanda que não dá conta de absorver a produção, de outro existem incentivos do próprio governo em ganhar escala."

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Nesse contexto, vender abaixo do custo deixa de parecer irracional e passa a ser uma estratégia defensiva. Manter a fábrica operando perto da capacidade projetada reduz custo por unidade; interromper produção pode ser ainda mais caro.

"Neste sentido, com o 'descontrole' na produção, o preço acaba sendo o principal mecanismo de proteção das fabricantes para o controle dos estoques com a ideia de que é melhor vender com um pequeno prejuízo do que não vender e ter que absorver um prejuízo maior mais para frente", resume Kalume.

O problema é que, quando isso se torna prática recorrente, a conta chega para toda a cadeia. Concessionárias passam a operar no limite da rentabilidade, fornecedores são pressionados e a sustentabilidade financeira do setor entra em risco. É justamente esse efeito cascata que Pequim agora tenta conter.

A consequência, segundo Milad, tende a ser a consolidação. "A maior consequência é a possibilidade de fusão de algumas empresas. Quem não conseguir produzir com ainda mais eficiência deverá sair do mercado, se encolher ou se fundir com uma outra empresa."

Ele avalia que o curto prazo pode trazer impacto nas vendas, mas que a reorganização deve prevalecer. "Janeiro de 2026 já trouxe alguns números indicando queda nas vendas e o mercado a relacionou com o ambiente de incentivos. Com o passar dos meses a reorganização prevalecerá e ficará mais evidente do que um encolhimento estrutural. Apostaria em menos marcas atuando por lá - considerando que hoje são quase 150 -, maior disciplina nos preços pelas fabricantes e ainda maior eficiência produtiva."

Consultorias internacionais, como o JP Morgan, também preveem retração no mercado chines entre 3% e 5% em 2026. Além disso, é esperado crescimento nas exportações, e é aí que o Brasil entra.

Brasil é estratégico para montadoras chinesas

Com a oferta maior do que a procura, a China precisa, mais do que nunca, vender seus carros para outros mercados. Como grandes consumidores de carros, como Europa e Estados Unidos, estão criando barreiras fiscais cada vez maiores para proteger seus indústrias, chegando a 100% de imposto de importação, países como o Brasil se tornam uma "tábua de salvação".

Para o estrategista da Bright Consulting, Cássio Pagliarini, se a redução de descontos na China derrubar as vendas internas, pressionaria preços em outros mercados para baixo, ainda que de forma limitada.

"Se os descontos se reduzirem [na China], as vendas poderão ser menores e sobrarão mais carros para liquidar em outros países. Uma medida como essa pode impactar os preços no Brasil, porém em pequena escala."

Ele chama atenção para a lógica industrial que sustenta a insistência em produzir mesmo quando o mercado não acompanha. "Uma fábrica tem máxima eficiência se operar na capacidade projetada. Preferem fabricar com o menor custo e dar descontos depois. Resta saber onde a equação seria mais favorável."

Em outras palavras: a tentativa chinesa de disciplinar preços pode ter um efeito paradoxal. Ao reduzir a "válvula" do desconto doméstico, pode deixar sobrar carro - e esse carro, para não virar estoque caro, tende a buscar saída em outros mercados.

Isso não significa que a vantagem competitiva das chinesas no Brasil "acaba". Escala produtiva, cadeia de baterias e integração vertical continuam sendo trunfos relevantes. Mas a dinâmica que transformou o mercado chinês numa arena de descontos extremos está entrando em outra fase, com mais intervenção estatal, mais pressão por eficiência e uma possível aceleração do processo de consolidação.

Resultado das eleições

Milad Kalume avalia que o impacto externo da reorganização chinesa dependerá não apenas do controle interno do governo sobre a indústria, mas também do ambiente político nos principais mercados importadores.

Segundo ele, de qualquer forma, a busca por parceiros comerciais vai se manter em alta: se a China mantiver descontos elevados no mercado doméstico, a recomposição de receitas tende a ocorrer nos mercados externos. Por outro lado, se o mercado interno ficar mais disciplinado, a busca por novos mercados continuará, e a competição por participação global permanecerá intensa.

Diante dos dois cenários, aumenta o risco de questionamentos internacionais e de medidas de proteção comercial, como já ocorre nos Estados Unidos e na Europa. Para o Brasil, o efeito pode variar conforme o posicionamento do governo eleito. A depender do resultado das eleições e da linha adotada, pode haver manutenção do padrão atual ou maior restrição à presença de veículos chineses.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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