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Doenças de gatos domésticos ameaçam felinos selvagens no Brasil

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Doenças de gatos domésticos ameaçam felinos selvagens no Brasil

Não bastasse a caça, o tráfico ilegal e a degradação de seus habitats, os felinos selvagens brasileiros enfrentam ainda outra ameaça, bem menos visível: a contaminação por doenças que acometem animais domésticos. Isso inclui animais como a onça-pintada (Panthera onca), a suçuarana (Puma concolor) e a jaguatirica (Leopardus pardalis).

"Há um risco para todas as espécies de felinos. Principalmente para nossas espécies nativas e para as que estão ameaçadas de extinção", disse Flavia Tirelli, doutora em zoologia e coordenadora da Geoffroy's Cat Working Group, uma rede internacional que luta pela conservação do gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi) e de outros felinos silvestres.

Segundo a especialista, que também atua como pesquisadora no Laboratório de Evolução, Sistemática e Ecologia de Aves e Mamíferos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o avanço de doenças comuns entre gatos domésticos (Felis catus) — como o vírus da imunodeficiência felina (FIV), o vírus da leucemia felina (FeLV) e a panleucopenia, causada pelo parvovírus felino (FPV), entre outros — pode impactar significativamente a fauna de felídeos em todo o Brasil.

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"As espécies ameaçadas têm populações menores e mais isoladas dentro de nossa matriz antrópica [ambientes naturais modificados pela ação humana] e também podem estar próximas de animais domésticos que carregam esses vírus", disse à Mongabay.

Segundo estimativas, o Brasil ocupa o terceiro lugar no pódio global em número de animais de estimação, com cerca de 30 milhões de gatos domésticos. Ao mesmo tempo, a estatística de felinos em situação de rua ou sem tutela definida também ultrapassa a casa dos milhões: dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) sugerem que há 10 milhões de gatos vivendo nessas condições de vulnerabilidade.

O cenário favorece o surgimento de animais semiferais — que vivem num estado intermediário entre a vida selvagem e a doméstica —, além de dificultar o controle de natalidade e acelerar a proliferação de doenças. Há também o risco de hibridização entre espécies selvagens e indivíduos domésticos, algo que, além de ameaçar populações selvagens ao comprometer seu perfil genético, pode resultar em animais mais suscetíveis ao adoecimento.

Tirelli explicou que o potencial de impacto de doenças "domésticas" não se restringe a uma espécie específica, podendo submeter diferentes felinos biologicamente sensíveis a patógenos perigosos. Esses agentes, por sua vez, podem se manifestar em quadros virais, mas também bacterianos, fúngicos ou parasitários, entre outros; muitas enfermidades podem ser fatais.

O perigo ambiental causado por doenças comuns acrescenta muitos desafios à preservação de espécies extremamente ameaçadas, como o gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai), felino que figura entre os animais que mais correm risco de extinção no Brasil, segundo a especialista.

Como a Mongabay mostrou em reportagem, esse pequeno e raro animal endêmico do bioma Pampa (na porção sul da América do Sul, incluindo também a Argentina e o Uruguai) já convive com o assédio dos humanos — por ser um predador de aves domésticas —, com a redução de seu habitat e com o risco de atropelamento nas estradas. Ao viver à sombra de diferentes formas de contágio, o felino se expõe a fatores adicionais que podem reduzir sua já escassa população.

Fragmentação de habitat facilita caminho de doenças

Segundo informações do Instituto para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais (Pró-Carnívoros), uma........

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