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Onde estão as feministas iranianas?

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29.03.2026

Onde estão as feministas iranianas?

Existe um consenso sobre a vida das mulheres iranianas: é uma vida horrorosa, de opressões, de assassinatos e apagamentos. A cada novo assassinato - muitos deles executados pelo próprio estado teocrático dos aiatolás - o mundo reafirma o senso comum.

Em 2022, a ativista iraniana Mahsa Amin foi detida pela polícia moral iraniana por não estar usando seu lenço na cabeça. Ela morreu na prisão, depois de ser espancada. O movimento feminista iraniano, organizado desde o começo do século 20, ganhou força e se consolidou sob o lema de "Women Freedom Life" - mulheres, liberdade, vida. Nas ruas, parte da população protestou por Amin e contra a repressão misógina estatal, muitos foram assassinados pelas forças de repressão do governo. Um cenário de horror sob qualquer parâmetro.

Quando Donald Trump iniciou seu bombardeio sobre Teerã, ele foi à TV dizer que contava com a participação da população iraniana para terminar o trabalho que ele começou: o de libertação dos cidadãos e cidadãs da ditadura iraniana.

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Façamos aqui uma pausa.

Donald Trump. - condenado por estupro, acusado de pedofilia (os arquivos de Epstein dão detalhes macabros da acusação) e autor da frase "mulheres devem ser agarradas pela vagina" - pretendia fazer com que acreditássemos que ele iria salvar as mulheres iranianas.

Não há como negar a violência do governo iraniano contra mulheres. Assim como não há como negar a violência do regime Trumpista contra mulheres. Ou a violência do bolsonarismo contra mulheres. Jair Bolsonaro é aquele que acredita que estupro é um elogio que homens praticam com algumas mulheres. Segundo ele, existem as estupráveis e as não-estupráveis. Esse homem foi eleito presidente depois de dizer isso e reafirmar o que disse.

Mas a misoginia não é uma prática da extrema-direita ou de governos teocráticos. Governos que dizem se alinhar a ideologias de esquerda não estão fora dessa arena, muito pelo contrário. É na misoginia que esquerda e direita se beijam.

Quando, aliás, as mulheres estiveram a salvo no mundo?

No Brasil, quatro morrem por dia assassinadas por seus maridos, ex maridos, companheiros, namorados, ficantes, filhos, pais. O feminicídio é o assassinato cometido por aqueles em quem um dia confiamos. O estado brasileiro participa desse horror deixando de punir e protegendo os criminosos.

Já leram sobre o caso Mariana Ferrer, que agora chegou ao STF? As imagens de sua audiência junto ao judiciário são públicas. Mariana Ferrer foi estuprada e o estado brasileiro a tratou como culpada do crime que sofreu. Todos os dias mulheres brasileiras passam pelo que Ferrer passou. É uma tática antiga usada para reprimir as denúncias. Não é a exceção; é a regra.

Em que país do mundo mulheres estão seguras? Com véu ou sem véu. Com regras claras a respeito de como usar o cabelo, maquiagens, saltos. Com punição quando nos vestimos com pouca roupa, com um decote muito acentuado, com saias muito curtas. Qual é o código de vestimenta necessário para que nos sintamos seguras?

Podemos argumentar que nos países do extremo norte, como Islândia, Suécia, Noruega e Dinamarca elas se sinta mais seguras. O que não quer dizer que estupros e feminicídios sejam nulos. Não são.

Temos como estabelecer critérios e rankings da violência contra mulheres no mundo, e as agências internacionais fazem isso. Em nenhum dos cálculos o Irã é o pior deles ou aparece entre os 10 piores. Índia é o pior. Arábia Saudita está ali entre os mais violentos. O Brasil é o quinto pior. Já Israel é uma nação conhecida por tratar de forma mais igualitária homens e mulheres. Lá, mulheres têm direitos iguais para integrar o exército. É o que buscamos? Esse tipo de igualdade?

No Irã, na Palestina, em Israel e no Brasil, todos os dias, mães se despedem de seus filhos sem saber se os encontrarão à noite. Todos esses países estão formalmente em guerra, menos o Brasil, o que torna a situação brasileira ainda mais triste.

No Brasil o cenário de guerra informal está restrito às favelas e periferias, como sabemos. As mães brancas do Leblon não vivem com esse medo. Só nas favelas vivem 20 milhões de pessoas. Qual país está olhando para suas mães, para o que sentem, para o trabalho que executam dentro dos lares?

Sim, temos um problema de misoginia forte no Irã. É inaceitável que uma nação mate suas filhas. Mas por que Trump e Netanyahu não se preocupam com as mulheres sauditas ou com as indianas?

Desde o início da guerra no Irã as feministas iranianas que estavam nas ruas reclamando seus direitos se re-organizaram contra o imperialismo estadunidense. O ato inaugural desse guerra foi o massacre de 170 meninas dentro de uma escola primária. Não foi um acidente, e foi executado pelo exército de Trump. Não existe feminismo que apoie esse tipo de violência.

Os contínuos ataques estadunidenses e israelenses sobre o Irã têm bombardeado escolas e universidades. A ativista iraniana Helyeh Doutaghi, doutora em política econômica e até 2025 professora em Yale, disse em entrevista ao jornalista Ali Abunimah no dia 28 de Março que o governo iraniano está oferecendo educação gratuita pela TV para os ensinos fundamental e médio a fim de tentar contornar a destruição das escolas pelas forças de Trump.

A professora está em Teerã e explicou que, diante da agressividade do imperialismo estadunidense, as dissidências estão borradas dentro do território iraniano nesse momento. Todos os dias, segundo ela, a população sai às ruas para oferecer apoio ao governo. Antigos detratores, mulheres e crianças marcham diariamente, mesmo sob o barulho das bombas caindo. Para ela, apoiar o governo agora é apoiar a guerra contra a violência colonial. "A menos que nos livremos das forças imperialistas coloniais na região, não poderemos lutar por justiça social dentro do nosso país", ela disse.

Trump e Netanyahu uniram um país inteiro. Se a intenção era contar com uma guerra civil para invadir o Irã e saquear seus recursos, o projeto já fracassou. O Irã é uma civilização milenar, altamente escolarizada (homens e mulheres) e consciente de suas lutas. A resposta à pergunta do título, portanto, seria: as feministas estão unidas contra o imperialismo estadunidense. Quando a guerra acabar, elas voltam a exigir seus direitos. Assim como fazemos hoje no Brasil, assim como estão fazendo as estadunidenses diante de Trump, assim como fazem mulheres - com mais ou menos barulho - em todos os cantos do mundo. Onde existe patriarcado, existem mulheres lutando contra ele.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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