Direito à cidade é também direito ao tempo
Direito à cidade é também direito ao tempo
Costumamos dizer que todas as pessoas têm as mesmas 24 horas e atribuir à organização individual a capacidade de "dar conta" da vida. Tem um "meme" interessante que circula nas redes, simulando um destes calculadores de trajeto na cidade que aponta que um mesmo deslocamento de carro leva 30 minutos e de transporte público, mais de duas horas. Alguém "desenhou" a ideia de cronomeritocracia: cobrar das pessoas uma boa "gestão do tempo" sem considerar as condições desiguais em que vivem.
Eu contei aqui que o Instituto Desacelera nasceu do Desacelera SP. Esta história começou há mais de dez anos, com um guia para as pessoas desacelerarem na capital paulistana. Um dos primeiros "motes" do Desacelera era "convivência afetiva na cidade". Alguns anos depois, o Dia sem Pressa virou esse festival que convoca as pessoas para um dia de "experiência, consciência e convivência" na metrópole. E o Instituto Desacelera nasceu para democratizar o acesso ao descanso, ao cuidado e à saúde mental. Tudo isso para dizer que foi de um incômodo com a vida acelerada na cidade que brotou a iniciativa. Então, tudo isso sempre esteve muito vivo no que faço.
Por isso, foi tão bom alinhavar algumas coisas e aprender tantas outras nesta conversa com o diretor executivo do Instituto Pólis, Rodrigo Iacovini. Nós falamos sobre alguns dos dados apurados e analisados pela organização e articulados a outros estudos, que mostram que a experiência temporal das pessoas na cidade é diferente e atravessada por marcadores sociais. "Uma calçada irregular, um terreno acidentado ou a falta de arborização tornam o trajeto mais demorado e extenuante. Ao distribuir sua infraestrutura de maneira desigual, a cidade acaba tomando mais tempo de vida da população pobre", afirma.
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O Mapa da Desigualdade de São Paulo 2024, da Rede Nossa São Paulo, mostra que, no pico da manhã, o tempo médio de uma viagem por transporte público era de 71 minutos para usuários de Marsilac e de 25 minutos para os de Pinheiros. "Nossa pesquisa mostrou que uma pessoa que vive na periferia poderia economizar até três anos de deslocamentos ao longo da vida de trabalho se morasse em uma área central, em um desses imóveis mantidos vazios por anos. É tempo que poderia ser dedicado ao estudo, ao lazer e à convivência familiar", conta Iacovini.
Com base em dados do Censo 2022, o Instituto Pólis identificou mais de 87 mil domicílios não ocupados na região central de São Paulo. O estudo contrapõe esse potencial habitacional à necessidade de oferecer........
