As urnas e os desconfiados
Maria Hermínia Tavares
Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)
Link externo, e-mail de Maria Hermínia Tavares
Recurso exclusivo para assinantes
As urnas e os desconfiados
Resultados de pesquisa sobre as urnas eletrônicas não trazem alento aos democratas brasileiros
Cidadãos desconfiados das instituições democráticas não são propriamente novidade no Brasil
dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login
Recurso exclusivo para assinantes
Pelo menos 4 em cada 10 brasileiros acham que as urnas eletrônicas não são confiáveis; maioria apertada de 53% pensa o contrário. Esses valores médios escondem diferenças enormes, que espelham as inclinações políticas dos entrevistados. Enquanto 75% dos que apoiaram Lula no segundo turno de 2022 não veem problema na maquininha de votar, só 26% dos eleitores de Bolsonaro acham que ela produz resultados criveis. Os dados são de um recente levantamento da Genial/Quaest.
Só as esquerdas, que a pesquisa separa em lulistas e não-lulistas, formam maioria —bem acima da média— em apoio à votação eletrônica. É irrisória a parcela da direita bolsonarista (18%) que compartilha essa opinião positiva, o mesmo acontecendo com apenas 30% dos direitistas que não seguem fielmente o ex-capitão. Já os entrevistados que se dizem independentes dos dois campos políticos dividem-se quase na mesma proporção que a média dos entrevistados: 55% confiam nas urnas e 41%, não.
Receba no seu email o que de mais importante acontece na capital federal
Cidadãos desconfiados das instituições democráticas não são propriamente novidade no Brasil, nem em outras paragens onde prevalece o governo representativo. É o que se vê na edição de 2025 do "Government at Glance" (Panorama do Governo), publicada pela OCDE. O estudo dedica um capítulo inteiro à confiança nas instituições públicas nos 38 países que formam a organização. Para os autores do relatório, a desconfiança é um indicador do hiato entre as expectativas dos cidadãos e o que as instituições efetivamente oferecem nas sociedades democráticas. De fato, parece ser também consequência inevitável do próprio sistema representativo que, nas democracias contemporâneas, distancia inexoravelmente representantes e representados.
Ícone Facebook Facebook
Ícone Whatsapp Whatsapp
Ícone de messenger Messenger
Ícone Linkedin Linkedin
Ícone de envelope E-mail
Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
A interpretação do fenômeno divide os cientistas políticos. Alguns concebem a descrença nas instituições como sintoma de mal-estar, se não de crise, das democracias representativas. Outros, como o historiador francês Pierre Rosanvallon, a encaram como indício da existência de uma cidadania mais atenta ao que fazem os governos e mais apta a sustentar mecanismos de controle dos governantes. Essa é a tese que defende em "La contre-démocratie. La politique à l’âge de la défiance" (A contra-democracia: a política na era da desconfiança).
De toda forma, os resultados da pesquisa sobre as urnas eletrônicas não trazem alento aos democratas brasileiros. Afinal, as eleições livres e limpas são o coração do sistema, e o respeito aos resultados garante a sua continuidade. A dúvida sobre a integridade do processo eleitoral sempre pode ser explorada por lideranças e movimentos de feição autoritária. Foi o que fez Jair Bolsonaro, e é o que provavelmente fará quem reivindica sua herança política.
Na sexta-feira passada, o Brasil perdeu José Alvaro Moisés, cientista político e professor da Universidade de São Paulo. Ele foi, ao mesmo tempo, acadêmico respeitado e intelectual na primeira linha da defesa da democracia. A desconfiança cidadã era um dos seus temas mais caros. A seu juízo, a baixa confiança institucional gerava "ambivalência democrática", ou seja, apoio à democracia em abstrato, mas tolerância a soluções autoritárias em situações de crise. Ele se foi; sua obra permanece atualíssima.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login
Recurso exclusivo para assinantes
Leia tudo sobre o tema e siga:
Ataques de 8 de janeiro
sua assinatura pode valer ainda mais
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
sua assinatura vale muito
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Leia outros artigos desta coluna
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2026/02/as-urnas-e-os-desconfiados.shtml
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
notícias da folha no seu email
notícias da folha no seu email
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo, Elio Gaspari, Djamila Ribeiro, Tati Bernardi, Dora Kramer, Ruy Castro, Muniz Sodré, Txai Suruí, José Simão, Thiago Amparo, Antonio Prata e muito mais.
No Brasil, novidades à direita
No Brasil, novidades à direita
O fim das ilusões progressistas
O fim das ilusões progressistas
O quieto paradoxo da democracia
O quieto paradoxo da democracia
