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Com bombas, Trump distrai, Khamenei ganha discurso e Netanyahu se fortalece

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28.02.2026

Com bombas, Trump distrai, Khamenei ganha discurso e Netanyahu se fortalece

Donald Trump e Benjamin Netanyahu bombardearam hoje o Irã de Ali Khamenei, que revidou com mísseis contra Israel e bases dos Estados Unidos. O ataque, que está matando civis, entre eles mais de 50 crianças em uma escola ao sul do país persa, e a reação a ele, podem trazer benefícios para os líderes dos três países, segundo o cálculo deles, claro. Só o povo que, como sempre, se lasca.

Na avaliação de Reginaldo Nasser, professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP, o ataque pode ser bom para Trump e ajudar Ali Khamenei, que enfrentam problemas internos, mas é excelente para Netanyahu.

Mais do que forçar uma paz no Oriente Médio em seus termos, Trump pode estar fazendo barulho para entreter o eleitorado. Em novembro, os EUA vão às urnas para renovar boa parte do Congresso, podendo tirar do presidente a maioria para fazer o que quiser. Como não cumpriu promessas que fez à classe trabalhadora, como a queda da inflação, está sendo acusado de cumplicidade com o predador sexual Jeffrey Epstein e vem sendo alvo de protestos pela violência causada por sua agência anti-imigração, ele vai à guerra, seguindo a cartilha da Casa Branca.

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Foram dois países bombardeados em dois meses, a começar pela Venezuela. Não que ele vá fazer isso em março, abril, maio... Até porque se há menos resistência do establishment democrata para agir contra esses dois países, o Congresso norte-americano não autorizaria uma guerra contra a Dinamarca em nome da Groenlândia. Mas isso é suficiente para chamar a atenção do mundo, com ele bradando que em nome da segurança do povo norte-americano.

Ao mesmo tempo, o regime comandado por Ali Khamenei está sob o seu maior risco desde a revolução de 1979. A pressão interna devido a problemas econômicos e os protestos por mais liberdade, reprimidos com uma caminhão de mortes, ainda põem o regime em risco - por mais que o Irã nem de longe seja uma Venezuela.

O ataque, se por um lado traz dor e mais problemas estruturais, por outro, ajuda a fortalecer o discurso da ameaça externa. Um grande "nós te avisamos" à população, lembrando que a ditadura teocrática sempre alertou para o risco de intervenção norte-americana. Poucas coisas são tão abjetas quanto a morte de crianças bombardeadas em uma escola. Nesse sentido, o ataque pode ter um efeito colateral benéfico a sobrevivência do próprio regime. Se o aiatolá e o presidente não morrerem em bombardeios, claro.

Mas o maior beneficiário é, sem dúvida, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Se há um tema que unifica governo e oposição em Israel é o Irã. Ao bombardear o país, e ser atacado de volta, ele recebe apoio de grande parte da população.

Vale lembrar que ele vem sendo duramente criticado, menos por ter implementado uma limpeza étnica em Gaza que pode ter ultrapassado 75 mil mortos e mais por não ter sido capaz de evitar os ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023 (que deixaram mais de 1,1 mil mortos) e não ter trazido com vida boa parte dos reféns. Além dos graves indícios de corrupção.

Trump, Khamenei e Netanyahu se valem de um teatro de ameaças externas para mascarar falhas domésticas e fracassos de liderança. A retórica patriótica inflamada, as promessas de segurança e as manchetes que tentam justificar o injustificável só servem para encobrir uma verdade simples: são governos que colocam seus interesses acima da vida de civis que nada têm a ver com suas ambições ou rivalidades.

E enquanto os estrategistas políticos comemoram possíveis ganhos de curto prazo nas pesquisas ou na coesão interna, o saldo real está no sofrimento humano e no endurecimento de discursos que já não conseguem ocultar sua brutalidade.

Os cálculos de Trump e de Khamenei podem estar equivocados, nublados por sua arrogância. O público interno norte-americano, principalmente sua base MAGA, pode se cansar desse tipo de ação enquanto o preço do hambúrguer e o custo das hipotecas sobe. E os ataques podem, de fato, enfraquecer o regime iraniano, por mais que ele tenha uma base descentralizada de ação, facilitando a oposição. O único que sai ganhando é o Açougueiro de Gaza.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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