Vendo uma casa. Mas não sei se quero encontrar alguém que a compre
Vendo uma casa. Mas não sei se quero encontrar alguém que a compre
Vendo um jardim. De um verde vívido, apenas matizado pelos tons brumosos da memória. Vendo umas quantas árvores cujo nome me escapa, com flores perenes e esporádicas, e insetos infinitos, e pássaros incontáveis, como o sabiá-laranjeira que perturbava o sono do meu pai. Vendo a terra que minhas filhas cavoucaram à procura de um tatu-bolinha, encontrando dezenas deles, cutucando suas carapaças. Vendo o quintal onde viveu Tango, ele como outros tantos cães, mas sobretudo Tango, que ali assomava à grade e chorava sua solidão até que alguém afagasse seus pelos ásperos, sujos de terra, e escutasse sua confissão. O jardim que vendo já foi ordeiro, podado, harmônico; hoje suas plantas crescem rebeldes como as lembranças.
Vendo uma sala. Suas paredes todas de vidro turvando as fronteiras entre dentro e fora, trazendo para o interior o jardim vívido e atrás dele a cidade interminável. Vendo o espaço solene e íntimo das ocasiões especiais, das noites em que a casa se enchia de convidados e havia música e riso e até canto e até dança, e conversas que se estendiam na embriaguez da madrugada. Vendo essas paredes manchadas de vozes, que ainda as devolvem a quem porventura se encoste e faça um silêncio profundo, tentando ouvir os ecos do passado. Vendo essas paredes onde pendem há décadas os mesmos quadros, uma paisagem urbana de Renina Katz, uma natureza-morta de tão desbotada, uma senhora........
