Um homem diante de seu país: sobre os traços de caráter de um argentino
Um homem diante de seu país: sobre os traços de caráter de um argentino
De que se faz a relação de um homem com seu país, com a terra que alguém disse que era a sua? Que gravidade o atrai àquele chão, à água, ao ar, à língua? Que estranhos hábitos coletivos se acomodam em seu corpo, tomam sua personalidade, tornam-se traços distintivos, insuspeitas partes de sua identidade? A pátria, que nada importa, tem no entanto um apelo que não se explica, convoca, interpela, grita, de mil maneiras se faz ouvir.
Em nada disso eu pensava enquanto esperava naquela fila, esperava distraído, que é sempre a melhor maneira de esperar um tempo excessivo. O sujeito teve então que me chamar duas ou três vezes, estava impaciente, tinha atribulações demais naqueles dias, eram as férias escolares e as cataratas estavam cheias de famílias alegres, ruidosas famílias brasileiras que perturbavam seu sossego austral, sua paz argentina. A transação devia ser simples: pedi a ele três ingressos para as cataratas em valor integral, e um mais barato como se previa para os cidadãos argentinos.
Uma prova de cidadania, ele pediu, em tom seco. Para isso eu estava preparado, e de pronto lhe entreguei meu documento de identidade, com a foto antiga tirada décadas atrás numa tarde........
