É possível ler com os ouvidos? A literatura como resistência ao ruído
É possível ler com os ouvidos? A literatura como resistência ao ruído
É possível ler com os ouvidos? Quando uma voz alheia nos conta uma história sem que vejamos o livro, quando nos cumpre imaginar não só o rosto dos personagens mas também o desenho das letras sobre o papel, podemos chamar isso de leitura? Numa entrevista recente que dei ao Missão Saber, do UOL, me vi a expressar com ênfase excessiva as dúvidas que nutro a respeito, e acho que acabei suscitando em ouvidos experientes alguma impaciência. Não é uma questão menor: talvez nela se expresse a economia de atenções que tem gerido o nosso tempo, e algo do novo e estranho funcionamento da nossa mente.
O que eu queria explicar era por que, ainda sendo tão afeito aos livros, não tenho o costume de ouvi-los, preferindo a imersão em páginas tangíveis aos olhos. Dois argumentos me moviam. Primeiro, a rejeição às exigências produtivas, à ideia de que há ganho em fazer várias coisas ao mesmo tempo, liberar as mãos enquanto se lê para lavar a louça, arrumar a casa, dirigir. Segundo, a possível passividade desse exercício. Quando lemos um livro com olhos próprios, definimos o ritmo, paramos quando o pensamento sai à deriva, damos espaço ao devaneio, ato fundamental à leitura, quiçá sua própria razão de ser. O audiolivro convoca de novo a nossa atenção e luta para não nos perder; nesse sentido não difere tanto de outros consumos contemporâneos, dos filmes, das séries, ou mesmo da estridência infinita das redes.
Mas dou um passo........
