Nenhuma mulher é responsável pela violência que sofre
Ilona Szabó de Carvalho
Presidente do Instituto Igarapé e fundadora da Green Bridge Facility, é mestre em estudos internacionais pela Universidade de Uppsala (Suécia)
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Nenhuma mulher é responsável pela violência que sofre
Caso de mãe culpada por filhos mortos pelo pai escancara naturalização perversa da violência de gênero
Mudança cultural passa por reconhecer o problema como de política pública e não da esfera privada
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Um homem mata os filhos, tira a própria vida e deixa uma carta em que culpa a mãe deles por ter chegado ao "limite do improvável". A mulher é obrigada a se retirar do enterro do filho, diante do tumulto de populares que a acusam do crime perpetrado pelo ex-marido. No tribunal das redes sociais, ela é condenada —não puxou o gatilho, mas provocou as mortes. Se não, qual outra explicação existe para o que o homem fez?
O assassinato de dois meninos pelo pai em Itumbiara (GO), na semana passada, não é uma tragédia episódica, nem um caso de descontrole momentâneo de um homem de bem. Estamos falando da expressão contínua de uma cultura que naturaliza o controle, a posse e a violência contra mulheres. Trata-se de poder. E poder exercido de forma letal.
Por isso, não é surpresa a reação imediata de parte da sociedade de procurar uma explicação que alivie o agressor —e, pior, responsabilize a mulher. Como se a decisão de uma separação, um conflito conjugal ou qualquer frustração masculina pudesse justificar a execução de crianças para atingir a mãe. Como se houvesse provocação suficiente para explicar o inominável.
Culpar a mulher não é apenas moralmente equivocado; é socialmente perigoso. Isso desloca o foco da violência para o comportamento feminino, reforçando a ideia de que mulheres devem gerir emoções masculinas, evitar conflitos, "medir palavras" para não despertar fúrias. É a atualização moderna do velho argumento de que "ela pediu". Não pediu. Nunca pede.
Quando o homem mata os filhos para punir a mãe, estamos diante de uma forma extrema de violência de gênero. É a instrumentalização das crianças como extensão do domínio sobre a mulher. E reflete mais um sintoma doentio de um sexismo estrutural e endêmico, no qual a paternidade é vista como de natureza biológica, enquanto a maternidade é dom e responsabilidade femininos. Não é coincidência o alto índice de mães solo, chefes de família, nas estatísticas brasileiras.
Cada vez que a sociedade busca justificativas para o agressor, envia um recado silencioso às vítimas: sua dor será interrogada, sua conduta será analisada, sua história será colocada em julgamento. Esse ciclo de desconfiança alimenta o silêncio e dificulta denúncias.
Enfrentar o feminicídio e todas as violências não letais contra mulheres é reconhecer que não estamos tratando da esfera do privado, mas de desigualdades estruturais que precisam ser combatidas com políticas públicas.
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Mais do que endurecimento penal —embora a responsabilização seja indispensável— precisamos de protocolos eficazes de identificação de risco, de capacitação permanente das forças de segurança, de fortalecimento das redes de acolhimento e de campanhas que questionem masculinidades baseadas na dominação. É com políticas e ações consistentes e a atuação integrada do Estado que se provoca a necessária e profunda mudança cultural.
Há poucos dias, foi anunciado o Pacto Brasil dos Três Poderes para enfrentamento do feminicídio, com o compromisso de atacar de forma conjunta as causas e criar soluções para a violência de gênero. Esse pacto precisa gerar um plano concreto e ser implementado em sua totalidade.
Nenhuma mulher é responsável pela violência que sofre. Já passou da hora de enterrar a cultura que relativiza agressões, que ri de ciúmes possessivos, que confunde amor com vigilância. Nós, mulheres, não queremos mais seguir contando vítimas.
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