O ego de Lula no sambódromo
Doutor em história, é autor de 'Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira' e 'Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga'
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O ego de Lula no sambódromo
Enredo da Acadêmicos de Niterói repetiu chavões retóricos do PT
Personalismo político é legado que as esquerdas não conseguem superar
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Muitos se perguntaram o que Lula ganhou com o desfile em sua homenagem realizado pela Acadêmicos de Niterói no sambódromo do Rio de Janeiro no último domingo (15). Por que bancar uma aposta tão personalista, fazendo o PT correr riscos políticos incalculáveis?
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Lula não é ditador. Mas seu ego personalista parece não ter limites, com conivência submissa de sua base. Um exercício rápido de troca de personagens provaria o descalabro da aberração. Estaria correto Bolsonaro a aparelhar uma escola para exaltar sua vida e obra política em ano de eleição? Ainda mais com dinheiro público? Imagine o escândalo que seria entre as esquerdas, com razão.
Nem é preciso voltar tanto no tempo para ver que nossas esquerdas já foram mais coerentes. As atuais críticas à Acadêmicos de Niterói pela homenagem a Lula em ano eleitoral ecoam um episódio de 20 anos atrás, mas com os protagonistas invertidos. Em 2006 o PT criticou com razão a Escola de Samba Leandro de Itaquera, de São Paulo, por utilizar esculturas gigantes de José Serra e Geraldo Alckmin (ambos do PSDB na ocasião) em seu desfile, também às vésperas das eleições.
Diante da aberração política, aparentemente ninguém parou para analisar o enredo da Acadêmicos de Niterói e constatar o que pode ter agradado tanto ao ego de Lula. Tive acesso ao "Livro Abre Alas", material que é distribuído aos jurados pela Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro antes dos desfiles. Nele, cada escola de samba detalha suas escolhas estéticas, do enredo às fantasias, dos carros alegóricos aos menores adereços.
O "Livro Abre Alas" da Acadêmicos de Niterói é explícito na exaltação ao presidente em exercício. No entanto, mais do que o que foi dito no samba-enredo e na apresentação da escola, é preciso analisar os silêncios. Quase sempre é neles que está o controle da informação. Num show de performance verborrágica, o samba enredo se calou sobre fatos centrais da trajetória do presidente Lula. Vamos a alguns deles.
Em nenhum momento adversários históricos do presidente Lula, como FHC e Collor, foram citados. Uma direita mais coerente que a atual, que o derrotou três vezes nas urnas, foi apagada de sua trajetória. No samba enredo da Acadêmicos de Niterói, os seus inimigos são a ditadura militar e o fascista Bolsonaro. Deleta-se qualquer razoabilidade política em função de polarizações narrativas. Não quer Lula? Olha o que tem aí à espreita: ditadores e fascistas. Essa é exatamente a retórica que o PT instrumentaliza a cada eleição.
Outro silêncio chama muito a atenção. Como se sabe, o personagem histórico Lula não surgiu no vácuo. Ele foi fruto de lutas sociais da base. O Partido dos Trabalhadores foi expressão de três setores importantes que o fundaram: 1) os operários do ABC em mobilização contra empresas da região; 2) intelectuais da USP de linhagem marxista, em busca de associação com estes trabalhadores e 3) a igreja católica da Teologia da Libertação.
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Destes três grupos, apenas o primeiro foi exaltado, justamente porque é a origem direta de Lula. Não à toa o samba-enredo se intitulava: "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil". Intelectuais e igreja católica nem sequer foram citados no desfile. No "Livro Abre Alas" tampouco aparecem. Apagando-se outras narrativas da própria esquerda, concretiza-se a ideia de Lula como salvador da pátria. No entanto, a retórica personalista lulista é infiel à própria história do PT.
Não é de hoje que o ego de Lula faz mal às esquerdas. E tudo leva a crer que nesta eleição viveremos novamente esse "dia da marmota", tudo novo de novo, igual como sempre.
Lamentável. Mas não é só culpa da "direita malvada" e das "elites conservadoras", como quis fazer crer o enredo da Acadêmicos de Niterói em endosso à narrativa lulista. Louvar um líder tão personalista configura-se numa submissão histórica das esquerdas brasileiras, que forja seus próprios grilhões.
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