A polarização e a radicalização nas eleições gerais de 2026
A polarização e a radicalização nas eleições gerais de 2026
Os índices de rejeição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo a pesquisa Datafolha do último sábado, são de 48% e 46%, respectivamente. O mesmo levantamento mostra que ambos são conhecidos da população. Esse cenário indica a repetição do quadro acirrado de 2022. Mas a radicalização revela mais do que a polarização. A ver.
As figuras de Lula e de Jair Bolsonaro arrebataram corações e mentes, goste-se ou não. São lideranças populares que espremeram o centro. Mesmo representado pelo filho, o nome de Bolsonaro estará na cédula e isso bastará para que se reedite o modelo de disputa eleitoral de 2022.
A chamada terceira via não se apresentou. Os candidatos que se colocam, além dos líderes das pesquisas, são representantes regionais, em grande medida, da direita. Zema e Caiado foram governadores bem avaliados e têm uma agenda e um discurso muito parecidos com o do bolsonarismo, vale dizer. Ratinho Jr. e Eduardo Leite - mais o segundo, aliás - seriam alternativas mais interessantes no sentido de construção de alternativas ao centro. Quis o labirinto da política encontrar outra saída, entretanto, para o desenho do tabuleiro deste ano.
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À esquerda, Lula é candidato único. Essa situação implicará um primeiro turno com cara de segundo. A menos de uma surpresa entre os candidatos menores da direita, os eleitores vão se posicionar entre Lula e Flávio. Nesse sentido, a estratégia ótima do incumbente é apresentar os resultados de seu governo e defender a continuidade e a expansão de suas políticas, ao passo que o opositor tentará atacar as fragilidades da economia e das medidas do atual governo.
O outro campo de batalha será o das questões sociais e da chamada agenda de valores. O bolsonarismo soube aproveitar esse tipo de embate no passado, invocando valores que tocam o conservadorismo latente em boa parte do eleitorado.
Em 2022, Jair Bolsonaro era o incumbente. Moveu mundos e fundos, atropelou a lógica da lei eleitoral e da responsabilidade fiscal e turbinou gastos para tentar se reeleger. O peso da má gestão e dos graves equívocos cometidos no período da crise pandêmica da Covid-19 falou mais alto.
Por outro lado, o arco de alianças da esquerda, com Geraldo Alckmin e Simone Tebet engrossando o cordão de Lula, foi decisivo. O resultado daquele pleito mostra que se tratou, contudo, de disputa bastante acirrada, o que tende a se repetir agora. São as mesmas condições, em certo sentido.
A guerra no Irã impõe ao atual governo a necessidade de agir, com as devidas tempestividade e responsabilidade, a esse fato novo, assim como Bolsonaro teve de lidar com a crise pandêmica, embora aquela crise tivesse ocorrido desde seu segundo ano de mandato. A comparação das reações adotadas, lá e cá, será inevitável.
O pano de fundo econômico é favorável a Lula, mas insuficiente para garantir a vitória. Desta vez, ele é o incumbente. Como disse o ex-presidente do PT, José Dirceu, o governo é que deve se defender, agora, diferentemente de 2022, quando o PT tinha de forjar um discurso de reconstrução e de ataque ao "modelo" adotado por Bolsonaro.
A saber, a economia brasileira apresentou bom desempenho de 2023 até o presente. O crescimento econômico chegou a quase 7% no acumulado do primeiro biênio. No ano passado e neste, a desaceleração já é sentida nos diferentes setores produtivos, no consumo e no investimento, mas a economia ainda sustentará expansão ao redor de 2% ao ano.
A inflação, por sua vez, está sob controle, e os efeitos da alta do petróleo sobre os combustíveis estão sendo amenizados pelas subvenções e isenções, que até o momento estão sendo acompanhadas de providências compensatórias para seus efeitos fiscais. O desemprego, por sua vez, continua nas mínimas históricas. Os indicadores de pobreza e de desigualdade diminuíram, sensivelmente, e revelam uma melhora nas condições da população que mais depende do Estado.
Por outro lado, o governo apresenta dificuldades para defender suas realizações junto à população. Se Bolsonaro, em 2022, teve dificuldades de mostrar-se sensível à população, ao sofrimento das famílias, enfim, de mostrar a empatia necessária, Lula vê-se, agora, diante da dificuldade de expor suas realizações. Melhor dizendo, tem dificuldades de defender seu legado e enfrenta a visão geral da opinião pública de que seu terceiro mandato seria apenas mais do mesmo.
Lula e Bolsonaro são duas "marcas" que, juntas, abarcam a quase totalidade das preferências da população. A chamada polarização é própria da política, mas há algo além dela, como disse o ex-presidente Michel Temer em entrevista a mim no podcast Warren Política. Trata-se da radicalização, da ausência do diálogo de forças políticas que, mesmo vencendo as eleições, não têm conseguido reunir vencedores e perdedores à mesa para construir um futuro negociado, um projeto de nação.
Essa radicalização dificulta a tarefa do incumbente de apresentar suas realizações, como disse, e estabelece uma dimensão de análise a afetar a percepção dos eleitores. Todo e qualquer tema é automaticamente cotejado com o seu simétrico oposto, em uma lógica de negar os fatos, inclusive, extremamente preocupante para o jogo democrático.
Se a esquerda tem dificuldade de autocrítica, o bolsonarismo não tem pudor para negar a realidade e apresentar-se como a salvação da pátria, uma receita lá de 2018. A pesquisa Datafolha confirma que o país está dividido e radicalizado, mas mostra que as duas forças políticas predominantes são também bastante rejeitadas, o que é sintomático.
Não enxergo, particularmente, uma balança equilibrada como no caso de parte dos que se referem à chamada polarização. O termo, no sentido usado, remete a uma ideia de que os dois lados seriam equidistantes dentro do campo democrático. Não são. Um lado, o de Lula, com todos os seus defeitos e erros, está no campo democrático. O outro, não. A defesa da anistia aos golpistas do 8 de Janeiro é a maior evidência disso.
Para a democracia, seria muito positivo que a direita se reorganizasse no campo democrático. No passado, já tivemos o PSDB, originalmente social-democrata, assumindo a centro-direita e realizando governos de elevado nível e com entregas reais à população. A polarização com o PT era saudável e havia dois modelos econômicos, políticos e sociais em jogo. Não existia, contudo, espaço para negociar os valores fundamentais da democracia e o respeito às instituições e à Constituição.
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