Antártida, um continente de cientistas
Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”
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Antártida, um continente de cientistas
Atualmente são 29 os países que operam estações de pesquisa no território gelado
Como diz o biólogo Paulo Câmara, 'a ciência é ferramenta geopolítica na Antártida'
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Há 200 milhões de anos, a Antártida estava ligada à América do Sul, à África, à Nova Zelândia, à Austrália e à Índia. O bloco inteiro formava o supercontinente Gondwana.
Depois da separação, o continente antártico ficou com 14 milhões de quilômetros quadrados (o Brasil tem 8,5 milhões); são rochas vulcânicas e geleiras imensas que armazenam 70% da água doce e 90% do gelo do planeta. É um lugar inóspito, assolado por ventanias e furacões e temperaturas inferiores às do Polo Ártico.
Na coluna anterior, descrevi as primeiras impressões da viagem que acabei de fazer à Antártida. Estive lá para um documentário sobre as pesquisas científicas que o Brasil desenvolve na Estação Comandante Ferraz, uma construção moderna, impressionante, que conta com 17 laboratórios equipados para receber os cientistas das nossas universidades.
A presença brasileira é consequência da adesão ao Tratado da Antártida, criado durante a Guerra Fria para evitar disputas territoriais e garantir a cooperação científica no território. Hoje são 29 os países que operam estações de pesquisa. Só eles podem pleitear o status de membro consultivo com direito a voto e a veto.
Para fazer parte desse grupo seleto, o Brasil criou o Proantar, o mais longevo dos nossos programas científicos. O braço científico fica por conta do Ministério da Ciência e Tecnologia e de sua agência de financiamento, o CNPq. A logística cabe à Marinha Brasileira, que mantém durante o ano inteiro o funcionamento da estação, de dois refúgios para o acampamento de pesquisadores e de duas embarcações: o navio de apoio oceanográfico Ary Rongel e o navio polar Almirante Maximiano, também equipado com laboratórios. O transporte de pessoal e de tudo o que entra e sai da estação fica por conta desses navios e dos voos operados pela FAB.
Mais de 50 cientistas começam a chegar a partir de outubro, quando as temperaturas ficam um pouco mais altas —ainda assim abaixo de zero. Em rodízio, permanecerão nos laboratórios da estação e do Almirante Maximiano até abril, época em que o gelo toma conta de tudo.
Daí em diante, sobrarão apenas 17 militares da Marinha, isolados no interior da estação durante o inverno inteiro por causa das temperaturas de dezenas de graus abaixo de zero e da velocidade de ventos, capazes de jogar no chão os que ousam enfrentá-los.
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Esses marinheiros são selecionados entre os voluntários que se inscreveram para passar 13 meses consecutivos reclusos na estação. Como o número de candidatos é superior ao de vagas, a disputa é grande e o treinamento árduo. Eles devem ser treinados e preparados para resolver todos os problemas que porventura surjam com material e equipamentos: motores, ar-condicionado, combustível, reparos mecânicos, encanamento, suprimento de água, tratamento de esgoto e coleta dos alimentos e do material de manutenção lançados pelos aviões da FAB, única forma de acesso quando a temperatura externa fica em torno de 30/40°C negativos.
Segundo o biólogo Paulo Câmara, da Universidade de Brasília, "a ciência é ferramenta geopolítica na Antártida". Pesquisadores de todas as regiões do Brasil passam meses longe de tudo e de todos, dedicados ao que mais gostam de fazer: pesquisa.
Há 29 projetos em andamento. Os temas são diversificados: o impacto das ações humanas nos peixes e moluscos; a diversidade de musgos e micro-organismos extremófilos, habitantes das microflorestas que afloram no verão; os efeitos do frio, do isolamento e dos fotoperíodos nos seres humanos; a influência da meteorologia espacial nas comunicações via satélite e no lançamento de foguetes; os patógenos potenciais na fauna, como os vírus da gripe aviária; e a busca de princípios ativos nas briófitas locais, trabalho conduzido nos laboratórios da Unip, em São Paulo.
Jovens que passam horas no silêncio dos laboratórios, na coleta de material nas geleiras ou nos botes de borracha que os levam para áreas distantes reúnem-se no fim do dia para contar o que fizeram e por onde andaram. As conversas, as discussões científicas, as risadas e as brincadeiras enchem a estação de vida.
Saí dessa experiência sob o impacto visual dos rochedos assustadores e das geleiras sem fim, com orgulho da produção científica dos nossos pesquisadores e do trabalho imprescindível da nossa Marinha, sem o qual o Brasil não estaria presente nessa parte do mundo.
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