O encontro entre saberes indígenas e medicina ocidental
O encontro entre saberes indígenas e medicina ocidental
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As tecnologias de cuidado em saúde das medicinas indígenas e da medicina ocidental evidenciam dois sistemas fundamentados em paradigmas epistemológicos distintos, embora igualmente complexos e estruturados, que resultam em modos diagnósticos e terapêuticos diferenciados.
A medicina ocidental organiza-se majoritariamente a partir da epistemologia positivista e do modelo biomédico moderno, cuja matriz histórica está vinculada à ciência europeia. Nesse paradigma, o corpo humano é objetivado e fragmentado em sistemas, órgãos e funções, sendo compreendido como uma entidade separada das dimensões espirituais, territoriais e cosmológicas. O processo saúde-doença é explicado predominantemente por determinantes biológicos, fisiológicos e físico-químicos, e o cuidado em saúde é organizado em torno do diagnóstico, do tratamento e do controle de agravos específicos, com forte centralidade em tecnologias industrializadas, protocolos clínicos, exames laboratoriais e procedimentos hospitalares, visando à resolutividade imediata dos sintomas ou patologias.
Em contraste, as medicinas indígenas constituem sistemas autônomos de conhecimento, com originalidade própria, vinculados às cosmologias indígenas e às narrativas de origem da vida, das doenças e das curas. Esses sistemas articulam, de forma indissociável, dimensões biológicas, espirituais, sociais, ambientais, territoriais e cosmopolíticas, orientando-se pelo conceito de corpo-território, no qual a saúde individual está intrinsecamente relacionada à saúde do território, da coletividade e das relações entre seres humanos e não humanos. A saúde é compreendida como um estado dinâmico de equilíbrio associado ao princípio do bem viver, enquanto a........
