Amazônia: Tráfico desafia cerco policial com novas rotas e armas de guerra
Amazônia: Tráfico desafia cerco policial com novas rotas e armas de guerra
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Principal porta de entrada das drogas produzidas na Colômbia e no Peru, a rota Solimões tem sido alvo crescente de fiscalização policial, o que resultou em grandes apreensões e mudança de perfil da ação dos criminosos.
A rota é formada pelos rios que descem dos países vizinhos e entram no país pelo Amazonas. Operada por CV (Comando Vermelho), PCC (Primeiro Comando da Capital) e outros grupos transnacionais, ela segue pelo Pará até o Amapá, usada para transportar cocaína e skunk.
Nos últimos anos, autoridades instalaram bases ao longo dos rios —três no Amazonas e duas no Pará—, o que tornou a vida dos traficantes mais difícil. Para enfrentar a presença das forças de segurança nos rios, os criminosos passaram também a investir em armas mais pesadas.
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10 toneladas apreendidas
Em um intervalo de oito meses, a polícia do Amazonas realizou duas mega-apreensões de drogas no rio Solimões. A primeira foi de 6,5 toneladas, em junho de 2025. A operação deixou dois suspeitos mortos, após troca de tiros.
No último dia 10, uma outra ação integrada das polícias do Brasil e do Peru apreendeu 4,3 toneladas de drogas, 10 armas de grosso calibre, 3.000 munições e carregadores. As duas ações ocorreram em Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus).
Na operação passada foi registrada a maior apreensão de armas já feita em uma embarcação do tráfico no Amazonas.
Entre os armamentos estavam cinco fuzis, dois deles modelo AK-47, conhecidos por resistirem a lama, areia e água e amplamente utilizados em conflitos e guerras.
"Eles sempre descem com as armas para fazer a proteção da droga. Eles usam até lançador de granadas", afirma o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Vinícius Almeida.
Vinícius diz que as apreensões cresceram a partir de 2020, quando foi implantada a primeira base fluvial no rio Solimões. Hoje há três dessas, cada uma envolvendo o trabalho de 50 a 70 policiais.
Segundo a SSP, desde 2020 as bases apreenderam 26,8 toneladas de droga. Apenas no ano passado, essas apreensões causaram prejuízo de R$ 209 milhões ao crime organizado, considerando drogas, pescados ilegais e minérios.
"À medida que o investimento foi crescendo, houve uma curva de crescimento nas apreensões porque fomos conhecendo o novo ambiente e aprendendo as técnicas", diz.
Segundo ele, em contrapartida ao aumento policial, os criminosos passaram a utilizar outros meios de transporte, como helicópteros, e intensificaram o uso de submarinos artesanais. "Eles têm casco escuro, navegam à noite e ficam praticamente invisíveis — aparecem apenas os escapes de combustível e de coleta de ar fora da água."
Dois desses submarinos foram apreendidos no estado, ambos com capacidade para transportar entre 4 e 6 toneladas. "Só os pegamos porque navegavam na vazante e bateram em bancos de areia. Quem teria capacidade de fiscalizar isso é a Marinha."
Reclamação ao governo federal
O coronel afirma que uma das maiores dificuldades para conter o crime é a pouca ajuda das Forças Armadas na fronteira, por onde as drogas cruzam com facilidade.
"Já fizemos pedidos [de reforço nas fronteiras] dezenas de vezes. A gente precisa que a questão seja vista pelo governo federal, estamos sós nessa guerra", diz.
"O Exército já tem poder de polícia em uma faixa de 150 km das fronteiras. A Marinha, quando aparece por aqui, é mais para fazer assistência médica. A Aeronáutica é que tem nos ajudado, e a PF é uma grande parceira nesse processo: ela ajuda muito com ações e informações."
Nós temos custos altos de combustível e alimentação. São R$ 7 milhões mensais gastos, e o governo federal apoia com apenas uma parte.
O que dizem as Forças Armadas
Sobre a reclamação do secretário, o Ministério da Defesa informou ao UOL que as Forças Armadas atuam na fronteira desde 2011 por meio da Operação Ágata, que reúne Marinha, Exército e Força Aérea Brasileira.
A operação combate narcotráfico, contrabando, tráfico de armas, crimes ambientais, imigração irregular e garimpo ilegal.
"A Operação Ágata conta com a participação de 12 ministérios e 20 agências, entre eles a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional de Segurança Pública, Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ibama, Funai, Receita Federal e órgãos de segurança dos estados das regiões de fronteira. A Operação Ágata acontece de forma pontual e também de forma singular por parte das Forças ao longo de todo o ano."
Segundo a pasta, a operação de 2025 incluiu ação coordenada entre Brasil e Colômbia na região do rio Puruê, responsável por "neutralizar oito estruturas de garimpo no lado colombiano", gerando prejuízo estimado em R$ 225 milhões ao crime organizado.
Já a Marinha informou à coluna que o Comando do 9º Distrito Naval atua "em diversas vertentes, inclusive contra delitos transfronteiriços e ambientais". Acrescenta que participa permanentemente da Base Arpão da SSP do Amazonas realizando inspeções navais.
"O ano de 2025 registrou aumento de 50% em relação ao número total de ações realizadas em 2024 (12 em 2024 e 18 em 2025). Nos dois primeiros meses de 2026, os meios subordinados ao comando já realizaram cinco Patrulhas Navais."
O Exército não respondeu ao pedido de comentário do UOL.
Mudanças e estratégias
O reforço policial nos rios levou a mudanças estratégicas no tráfico, analisadas pelos pesquisadores Roberto Magno Reis Netto (Universidade Federal do Pará), Clay Anderson Nunes Chagas, Daiane Santana Belfort (Universidade do Estado do Pará) e Clarina de Cássia da Silva Cavalcante (Secretaria de Administração Penitenciária do Pará).
Em 2025, eles publicaram artigo na revista GeoAmazônia sobre as dinâmicas territoriais do tráfico na rota.
Segundo os pesquisadores, para manter a fluidez no corredor amazônico, o tráfico alterna e integra diferentes meios de transporte para escapar da fiscalização.
A capacidade de adaptação dos agentes territoriais do tráfico demonstra a lucratividade da atividade e a constância do transporte de drogas realizado na rota Rio Solimões. Mesmo após a abertura recente de portos internacionais para o Pacífico, na Colômbia, o fluxo parece manter relativa constância.Trecho do artigo
Os principais modais identificados são:
Principal meio de transporte na rota, aproveita a vasta rede hidrográfica da região. Inclui submarinos artesanais, navios, balsas, barcos de pesca, lanchas de alta potência e pequenas embarcações como rabetas e canoas.
Para ocultar a droga, utilizam técnicas como amarrar a carga ao casco de navios, esconder em motores de popa ou usar fundos falsos — os chamados "mocós".
O uso de aeronaves é crescente. Pequenos aviões utilizam uma rede de pistas clandestinas em fazendas, áreas de garimpo e propriedades rurais. Em alguns casos, voam baixo para evitar radares e lançam a droga em pontos combinados, sem necessidade de pouso.
Integra-se ao fluvial para escoamento após o desembarque ou para desviar de bases de fiscalização. Caminhões e veículos de carga transportam droga em fundos falsos.
Rodovias estratégicas incluem a BR-163 (Santarém-Cuiabá) e a BR-230 (Transamazônica), que conectam o Norte ao Centro-Oeste e ao Nordeste.
Também é citado o uso de "mulas" — pessoas contratadas para transportar pequenas quantidades em voos comerciais, saindo de aeroportos como o de Manaus com destino a grandes centros.
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