Polilaminina: entre a esperança e o déjà vu
É professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Também é autor de 'Bel, a Experimentadora'
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Polilaminina: entre a esperança e o déjà vu
Substância ainda está em fase de teste e não é possível chegar a nenhuma conclusão
Nova droga tida como capaz de curar lesões medulares tornou-se orgulho nacional
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O caro leitor há de se lembrar da fosfoetanolamina. A famigerada "pílula do câncer" foi gestada por Gilberto Chierice, docente da USP –o que também a fez, por metonímia, a "pílula da USP". Catapultado por resultados preliminares em células e animais, o composto passou a ser distribuído pelo professor a pacientes oncológicos, como se a travessia do laboratório ao leito dispensasse o incômodo da evidência clínica.
A crença de desesperançados suplantou a frigidez dos dados, e a substância –sem o aval da Anvisa– ganhou ares de redenção nacional. Em 2016, sob aplauso popular, o Congresso aprovou lei autorizando seu uso; pouco depois, o STF a declarou inconstitucional, lembrando que comoção não é critério regulatório. Para contornar a interdição do remédio, surgiram os suplementos, declarados igualmente irregulares. O constrangimento extrapolou fronteiras: editoriais da Nature e da Science trataram o episódio como exemplo eloquente do que acontece quando o método científico se deixa tragar pelo populismo.
A sensação de déjà vu com a polilaminina é inevitável. "Quando (a medula) sofre uma lesão, os estímulos não conseguem mais passar. Até pouco tempo, não havia esperança de ‘reconectar esses trilhos’. Hoje, ela existe e tem nome: polilaminina." Assim o Fantástico anunciou ao grande público o novo medicamento tido como capaz de curar paraplegia e tetraplegia. O composto vem sendo estudado há 25 anos pela bióloga Tatiana Coelho Sampaio e sua equipe, da UFRJ. No estudo mais recente, com seis cães, a droga mostrou-se segura; o desenho, porém, não incluía grupo controle para avaliar eficácia.
O único ensaio clínico divulgado até o momento, ainda sem revisão por pares, também é do laboratório de Tatiana. O estudo apresenta limitações importantes: baixo número de participantes, ausência de grupo controle e respostas clínicas heterogêneas (três pacientes faleceram ao longo do seguimento, sem que se tenha estabelecido nexo causal com a intervenção). Para um estudo preliminar e exploratório, são fragilidades até esperadas. O problema surge quando conclusões fortes passam a ser extraídas de achados frágeis.
David Hume, no longínquo século 18, já advertia que o sábio ajusta o grau de sua crença à força das evidências. Diante do que acredita ser uma droga revolucionária, Tatiana afirma que "não tem mais o direito de ser conservadora". Mas é justamente isso o que dela se espera neste momento. Conservar o rito científico é zelar pela confiança social na ciência. Cumpre ao cientista manter uma relação ascética com sua hipótese –seduzido por ela, pode cair na tentação de trair o fato.
A polilaminina segue em avaliação em ensaio clínico de fase 1, etapa em que a segurança é examinada de modo preliminar, em poucos participantes. A população –sobretudo quem convive com lesão medular– merece saber que a probabilidade histórica de uma droga fracassar nessa fase de testagem ou nas subsequentes (onde, aliás, jaz a "pílula do câncer") e jamais chegar ao mercado pode alcançar 94%. Não se trata de torcida nem pessimismo, mas de estatística.
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Se a saga terminar em desfecho positivo, Tatiana e equipe gozarão de merecida notoriedade internacional, para o orgulho de todos nós. Entretanto, seria cruel subordinar o reconhecimento da cientista a um resultado que já não lhe cabe, mas ao veredito da natureza. Uma trajetória de duas décadas e meia dedicada a investigar uma molécula com potencial de devolver movimentos a quem os perdeu tragicamente –com todas as agruras de ser uma cientista no Brasil– deveria bastar para que a sociedade lhe rendesse reverência. Só o atropelo da ciência poderia subtrair-lhe o mérito.
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