menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A delícia que é 'não ir'

10 30
22.02.2026

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'

Recurso exclusivo para assinantes

A delícia que é 'não ir'

Faço parte do time dos FICAMOs, mais conhecido como JOMO ('joy of missing out')

Há um esforço contemporâneo para transformar isso em escolha filosófica e liberdade

dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login

Recurso exclusivo para assinantes

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'; colunista da Folha

Deixei passar. Fiquei no meu canto. Me alimentei como mandam, não bebi, me hidratei. Encontrei duas amigas, li "A Vegetariana", assisti "Hamnet" e terminei a série "Los Años Nuevos". Troquei mil pessoas por duas; o suor no bloquinho por lágrimas no cinema; o clima de pegação pelo romantismo na tela.

Foi um Carnaval esquecível, e talvez por isso especial.

Não é pose blasé, desprezo pela festa ou superioridade espiritual. É incapacidade mesmo de acompanhar o ritmo e as "hypes". Sou das que chegam sempre atrasadas aos livros premiados, aos filmes do Oscar e às séries a que todos estão assistindo.

Existe um prazer em "não ir", em não fazer parte de todos os rolês. Faço parte do time oposto dos FOMOs ("fear of missing out"), o time dos FICAMOs, mais conhecido como JOMO ("joy of missing out").

Há um esforço contemporâneo para transformar isso em escolha filosófica, autoconhecimento, liberdade para dizer "não", desapego. Não é nada disso, é preguiça. De falar, de ouvir, de explicar, de interagir e até de saber. Nos contentamos com a ignorância sobre coisas que não nos dizem respeito.

Pessoas como eu querem ser convidadas, mas querem "não ir". Veja, "querer não ir" é diferente de "não querer ir". O "não ir" é uma ação. É que não entendemos o conceito de sair para um lugar pior do que a própria casa.

A alegria começa quando surge a primeira possibilidade de desistência. Um evento climático, uma reunião cancelada, um resfriado. É dopamina na veia. Se o céu escurecer um tiquinho, é libertação. Se é dia de rodízio, não há Uber que nos faça ir. O cancelamento passa a ser o verdadeiro acontecimento social.

Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

A emoção dobra quando a gente quase vai e a vontade de não ir chega primeiro, fecha a porta, tira o sutiã e deita, enquanto a de sair ainda está escolhendo o acessório. Nada supera o prazer de tirar o sapato e vestir uma camiseta larga depois de decidir ficar.

Uma das minhas maiores invejas é estar pronta para uma festa —batom, salto, brincos, babados— e encontrar no elevador a vizinha de chinelo descendo para pegar pizza na portaria.

É fácil identificar a tribo. "Vamos combinar", "a gente vai se falando", "da semana que vem não passa", "vou ver aqui e qualquer coisa te aviso" fazem parte do dicionário informal do JOMO.

Dizer que somos antissociais é reduzir a complexidade do sistema. Desenvolvemos um tipo próprio de convivência marcando encontros que nenhuma das partes pretende cumprir. Assim, socializamos sem sair. Na hora que a gente combina, a intenção é sincera, mas a vontade vai minguando com a aproximação da data. Aí começa o jogo de resistência, quem desmarcar primeiro, perde.

Morar numa cidade como São Paulo, cheia de estímulos, deveria provocar o contrário. Sempre há um restaurante novo, uma exposição, um show, uma peça. Mas isso só amplia o leque do prazer de não ir. Não queremos só não sair, queremos ter a opção —e decidir não ir.

Só que, quando a preguiça perde e a gente acaba indo, nasce outra preguiça: a de voltar pra casa. Porque quando a gente resolve ir, vamos fundo. Ainda que, no dia seguinte, acordemos em plena Quarta-feira de Cinzas com glitter grudado na pele, a alegria discreta de ter sobrevivido ao mundo e um crédito na conta corrente do convívio social.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login

Recurso exclusivo para assinantes

Leia tudo sobre o tema e siga:

sua assinatura pode valer ainda mais

Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

sua assinatura vale muito

Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

Leia outros artigos desta coluna

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/becky-korich/2026/02/a-delicia-que-e-nao-ir.shtml

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

notícias da folha no seu email

notícias da folha no seu email

Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo, Elio Gaspari, Djamila Ribeiro, Tati Bernardi, Dora Kramer, Ruy Castro, Muniz Sodré, Txai Suruí, José Simão, Thiago Amparo, Antonio Prata e muito mais.

Os lindos que me perdoem, mas feiura é fundamental

Os lindos que me perdoem, mas feiura é fundamental

Denise Fraga e o riso diante da morte

Denise Fraga e o riso diante da morte

Se não fosse clichê seria genial

Se não fosse clichê seria genial


© UOL