A delícia que é 'não ir'
Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'
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A delícia que é 'não ir'
Faço parte do time dos FICAMOs, mais conhecido como JOMO ('joy of missing out')
Há um esforço contemporâneo para transformar isso em escolha filosófica e liberdade
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Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'; colunista da Folha
Deixei passar. Fiquei no meu canto. Me alimentei como mandam, não bebi, me hidratei. Encontrei duas amigas, li "A Vegetariana", assisti "Hamnet" e terminei a série "Los Años Nuevos". Troquei mil pessoas por duas; o suor no bloquinho por lágrimas no cinema; o clima de pegação pelo romantismo na tela.
Foi um Carnaval esquecível, e talvez por isso especial.
Não é pose blasé, desprezo pela festa ou superioridade espiritual. É incapacidade mesmo de acompanhar o ritmo e as "hypes". Sou das que chegam sempre atrasadas aos livros premiados, aos filmes do Oscar e às séries a que todos estão assistindo.
Existe um prazer em "não ir", em não fazer parte de todos os rolês. Faço parte do time oposto dos FOMOs ("fear of missing out"), o time dos FICAMOs, mais conhecido como JOMO ("joy of missing out").
Há um esforço contemporâneo para transformar isso em escolha filosófica, autoconhecimento, liberdade para dizer "não", desapego. Não é nada disso, é preguiça. De falar, de ouvir, de explicar, de interagir e até de saber. Nos contentamos com a ignorância sobre coisas que não nos dizem respeito.
Pessoas como eu querem ser convidadas, mas querem "não ir". Veja, "querer não ir" é diferente de "não querer ir". O "não ir" é uma ação. É que não entendemos o conceito de sair para um lugar pior do que a própria casa.
A alegria começa quando surge a primeira possibilidade de desistência. Um evento climático, uma reunião cancelada, um resfriado. É dopamina na veia. Se o céu escurecer um tiquinho, é libertação. Se é dia de rodízio, não há Uber que nos faça ir. O cancelamento passa a ser o verdadeiro acontecimento social.
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A emoção dobra quando a gente quase vai e a vontade de não ir chega primeiro, fecha a porta, tira o sutiã e deita, enquanto a de sair ainda está escolhendo o acessório. Nada supera o prazer de tirar o sapato e vestir uma camiseta larga depois de decidir ficar.
Uma das minhas maiores invejas é estar pronta para uma festa —batom, salto, brincos, babados— e encontrar no elevador a vizinha de chinelo descendo para pegar pizza na portaria.
É fácil identificar a tribo. "Vamos combinar", "a gente vai se falando", "da semana que vem não passa", "vou ver aqui e qualquer coisa te aviso" fazem parte do dicionário informal do JOMO.
Dizer que somos antissociais é reduzir a complexidade do sistema. Desenvolvemos um tipo próprio de convivência marcando encontros que nenhuma das partes pretende cumprir. Assim, socializamos sem sair. Na hora que a gente combina, a intenção é sincera, mas a vontade vai minguando com a aproximação da data. Aí começa o jogo de resistência, quem desmarcar primeiro, perde.
Morar numa cidade como São Paulo, cheia de estímulos, deveria provocar o contrário. Sempre há um restaurante novo, uma exposição, um show, uma peça. Mas isso só amplia o leque do prazer de não ir. Não queremos só não sair, queremos ter a opção —e decidir não ir.
Só que, quando a preguiça perde e a gente acaba indo, nasce outra preguiça: a de voltar pra casa. Porque quando a gente resolve ir, vamos fundo. Ainda que, no dia seguinte, acordemos em plena Quarta-feira de Cinzas com glitter grudado na pele, a alegria discreta de ter sobrevivido ao mundo e um crédito na conta corrente do convívio social.
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