Assassinato de filhos para punir mulher revive lógica da 'honra' masculina
Anna Virginia Balloussier
Repórter especial, escreve sobre religião, política, eleições e direitos humanos. Autora dos livros "O Púlpito" e "Talvez Ela não Precise de Mim"
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Assassinato de filhos para punir mulher revive lógica da 'honra' masculina
As redes sociais se apressam em julgar a mãe enlutada de Itumbiara (GO)
Relativizar suposto crime ricocheteia na tese da legítima defesa da honra
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Medeia, a protagonista da tragédia grega escrita há mais de dois milênios por Eurípedes, é traída por Jasão. Tomada por vingança, ela mata Creonte, a mulher pivô da separação.
Não basta. Ela quer que o ex-marido sofra o máximo possível. Decide então assassinar os dois filhos que tiveram, desfecho tido como dos mais perversos.
Um homem que faz mal aos próprios filhos para retaliar a mulher é um monstro, claro. A mulher que faz o mesmo é, perante a sociedade, muito pior do que isso. Uma aberração antinatural.
Se o inverso é mais raro, há numerosos exemplos de homens trucidam a prole para castigar a mãe pelo que quer que seja. O machismo e a misoginia ofertam motivos múltiplos para que um homem ressentido se ache no direito de atingir a mulher onde lhe dói mais.
São casos como o de David Lemos, condenado pela Justiça gaúcha por matar seus quatro filhos, de 3, 6, 8 e 11 anos, por não se conformar com o divórcio.
Morreu nesta sexta (13) o filho caçula de Thales Machado, secretário de Governo de Itumbiara (GO), e Sarah Araújo, filha do prefeito. A essa altura o leitor deve conhecer essa narrativa tão macabra quanto dolorosa. Thales é suspeito de atirar contra o menino de 8 anos e o primogênito, de 12. Depois se suicidou. Horas antes, publicou um vídeo na internet ao lado dos dois e legendou-o assim: "Que Deus abençoe sempre meus filhos, papai ama muito".
Motivo: teria descoberto que Sarah o traía.
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A Thales foram atribuídos adjetivos duros. Que ele foi covarde. Insano. Só que o feminicídio indireto, porque matar os filhos também é aniquilar a mãe, também gerou uma onda de empatia por ele.
Nessa versão popularizada pelas redes sociais, Sarah teve uma generosa parcela de culpa pelo que aconteceu com seus meninos.
Vídeos acumulam milhares de likes ao esmiuçar o suposto caso que Sarah tinha com um homem da cidade.
A verdade é que não altera em nada se ela de fato estivesse traindo o marido. Isso não desloca a responsabilidade para ela nem mitiga o crime em questão. Qualquer argumento nessa linha ricocheteia na tese da legítima defesa da honra, sepultada em 2023 pelo Supremo Tribunal Federal.
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Ela previa que assassinato ou agressão poderiam ser aceitáveis quando a conduta da vítima ferisse a honra do agressor. Na prática, livrava muito homem da prisão por matar uma mulher que fizesse algo que manchasse sua pose de machão.
A internet, contudo, mostra disposição para justificar a desforra contra a mãe enlutada. Um post com mais de 200 mil curtidas diz que Sarah pode até não ser culpada, mas "também não é santa". Ela, afinal, teria escolhido deixar os filhos com o pai para se encontrar com o amante. Leituras assim se multiplicam pelas redes.
A conclusão é óbvia: que tipo de mãe é ela, que colocou os filhos em perigo para satisfazer sua própria luxúria?
A Medeia de Eurípedes atravessou séculos como a encarnação do horror máximo: a mãe que fulmina a própria descendência para punir o marido que a abandonou. Seu nome virou sinônimo de desvio da natureza, de feminino descontrolado. Não há atenuantes para ela.
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Já quando o crime parte de um homem, por mais adjetivos fortes que se empreguem, a sociedade ainda procura explicações. O ciúme, a honra ferida, o "surto". A régua é outra.
Talvez porque ainda se espere das mulheres uma santidade compulsória, qualquer fissura no ideal materno é o suficiente para redistribuir culpas. Medeia é o mito que nos assombra. Sarah, a mulher real que parte da opinião pública se apressa em julgar.
Não há comportamento conjugal que dilua a responsabilidade de quem puxa o gatilho. Quando relativizamos o agressor porque a vítima "não é santa", mantemos ativa a mesma engrenagem que transforma mulheres em rés mesmo quando são elas as que ficam vivas para enterrar os filhos.
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