'Habitat' desmonta a lógica perversa do cancelamento
O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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Montagem tem os atores Rafael Primot, Rogério Brito e Fernanda de Freitas - Kim Leekyung / Divulgação
Num mundo onde a indignação é um espetáculo e a verdade é negociada nos bastidores do engajamento digital, o teatro ainda se permite o ato radical da reflexão. E é exatamente isso que "Habitat", a nova peça de Rafael Primot, oferece: um espelho quebrado, cujos cacos afiados refletem as fissuras da desumanização contemporânea.
Discípulo de Antunes Filho, Primot herdou um comprometimento com o gesto preciso e a profundidade do subtexto. Sua carreira multifacetada – entre atuação, cinema e escrita – sempre orbitou o "homem comum", elevando o detalhe cotidiano a um conflito existencial. Agora, em "Habitat", Primot dá um passo além.
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A trama começa in medias res, com um crime brutal já consumado dentro de um supermercado. A estrutura, no entanto, é brilhantemente não-linear. Em vez de um relato direto, somos apresentados a uma série de encontros e entrevistas conduzidas por Nádia (uma Fernanda de Freitas ágil e calculista), jornalista-influenciadora que se especializou em direitos dos animais. Ela busca a "verdade" de Adailton (o próprio Primot, em uma atuação contida e devastadora), o segurança que confessou o crime. O terceiro vértice deste triângulo tóxico é Tite (Rogério Brito, soberbo em sua frieza corporativa), o executivo da rede que nega qualquer responsabilidade, atribuindo a violência a uma "má interpretação" de suas ordens.
Aqui, Primot e seus diretores, Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, fazem sua jogada mais inteligente. A peça nos força a consumir a informação como consumimos um escândalo online: aos pedaços, através de narrativas enviesadas. A plateia se transforma em detetive – ou, mais precisamente, em jurado. A escolha do Teatro Estúdio, com seu palco em arena, é um golpe de mestre conceitual.
É na construção desses personagens que "Habitat" brilha como análise social. Eles fogem de qualquer arquétipo simplista. Nádia personifica o ativismo de performance, onde a causa serve ao ego e ao lucro. Sua parceria com Tite, negociada em uma mesa limpa e bem iluminada, é um dos momentos mais sórdidos e........
