Harry e a ilusão da relevância na era dos algoritmos
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Harry e a ilusão da relevância na era dos algoritmos
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Por: Ana Claudia Paixão - via Miscelana
Tenho dado uma pausa nas pautas sobre Harry e Meghan porque quem acompanha essa história sabe: no fundo, nada mudou tanto nos últimos seis ou sete anos. Existe uma repetição constante na dinâmica pública do casal, quase como se estivéssemos assistindo aos mesmos conflitos reapresentados sob novas manchetes. Embora isso revele certa coerência emocional da parte dos dois, também expõe algo mais complicado: uma insistência em revisitar permanentemente a mesma ferida.
Mas há uma mudança importante acontecendo com Harry especificamente e talvez seja justamente ela que torne a situação mais interessante agora.
O próprio príncipe escreveu em Spare que foi criado como "o reserva", o filho que existia para garantir estabilidade à linha sucessória. Só que mesmo essa função foi desaparecendo conforme William teve filhos e a lógica da sucessão avançou naturalmente. Se já era difícil ocupar o lugar de coadjuvante dentro da Família Real, Harry percebeu com o tempo que nem mesmo esse papel lhe pertenceria para sempre.
Ele foi soldado condecorado, membro de uma das instituições mais famosas do planeta e uma das figuras públicas mais reconhecidas do mundo. Ainda assim, nunca pareceu encontrar uma identidade realmente própria fora da estrutura monárquica. Hoje, paradoxalmente, talvez seja mais conhecido globalmente como marido de Meghan Markle e protagonista de uma ruptura pública do que como príncipe em exercício.
E é justamente aí que começa sua nova tentativa de reconstrução simbólica.
Seguindo, em parte, os passos de Diana — que também viveu uma profunda crise existencial depois da separação da monarquia institucional — Harry passou a investir numa imagem de liderança humanitária global. A filantropia virou não apenas uma plataforma moral, mas também uma forma de sobrevivência pública e financeira.
O problema não é querer atuar em causas internacionais. Há inúmeras celebridades fazendo isso. O ponto delicado é outro: Harry parece determinado a ocupar um espaço de autoridade política e moral sem possuir mais uma função institucional concreta que sustente esse lugar.
Ele opina sobre crises internacionais, saúde mental, guerras, política e responsabilidade social como alguém que se vê operando num palco diplomático global. Só que existe um vazio estrutural nessa posição: Harry fala sem responder institucionalmente........
