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Cabelos ao vento no Irão

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07.03.2026

Ao ver as imagens de iranianas a festejar, na diáspora, a morte do aiatola Ali Khamenei, lembrei-me de uma história escrita por um dos melhores repórteres que este país já teve, Fernando Gaspar. Aquando da primeira Guerra do Golfo, Gaspar foi o enviado especial do Expresso, isto em 1991. Depois de ter andado pela Turquia, onde conheceu, nas montanhas, uns curdos que fugiam de Saddam Hussein e dos próprios turcos, acabou por os encontrar mais à frente no Iraque, sabendo quando chegou à redação da Duque de Palmela que a família tinha alcançado o seu sonho e que estava na América, onde tinha sido muito bem tratada, depois do Fernando lhes ter indicado um oficial americano que poderia ajudá-los.

Mas essa história fica para outras núpcias. A que quero contar, e que o Fernando me reavivou com um telefonema que lhe fiz, é a da sua saída do Irão, onde tinha conseguido entrar, apesar de durante quase um mês ter tido os seus passos controlados e de não ter ido onde queria. No voo de Teerão para Istambul, ficou nas últimas filas e, como só via cabeças, distinguia os homens das mulheres pelos lenços que estas usavam. Assim que o avião saiu do espaço aéreo do Irão, e depois do comandante ter anunciado que os passageiros podiam desapertar o cinto, assistiu a um espetáculo cuja sua descrição nunca me esqueci. «Vi dezenas de mulheres a fazerem a mesma coisa, libertarem-se do lenço e a mexerem no cabelo com os seus próprios dedos, num gesto incrível de liberdade». O regime tenebroso do Irão ficava para trás, disse-me. Recordo-me de termos tido muitas conversas sobre o sentimento de liberdade e de como essas mulheres viviam oprimidas, num regime totalitário, em que uns fanáticos de barbas grandes decidem que as mulheres são abaixo de cão.

Não quero entrar na polémica se este ataque dos americanos e dos israelitas ao Irão violou o direito internacional e se a captura de Nicolás Maduro pelas tropas americanas também foi ‘ilegal’. Sei, sim, que quer num caso como no outro, as iranianas e os iranianos e o povo da Venezuela espalhados pela diáspora festejaram como se não houvesse amanhã. Foram esses, bem como muitos dos que vivem nesses países subjugados aos ditadores, que não querem saber do direito internacional ou se Trump é um doido varrido. Querem é saber se os ditadores são ‘corridos’ e se há esperança num futuro melhor.

Deixando as análises para os ‘especialistas’, alguns são fanáticos travestidos de comentadores, parece-me óbvio que muito boa gente olha para a vida dos outros pela pala ideológica, e pouco se importam se as pessoas que vivem em regimes totalitários têm ou não direito à mudança. Funcionam assim em tudo na vida. Se envolve Trump, então temos de dizer mal, mas se algum aiatola manda matar 30 mil civis só porque querem liberdade, a culpa é do imperialismo. Não tenho qualquer simpatia por Trump e interrogo-me sobre o que será o futuro do Irão. Mas não tenho dúvidas que pior é praticamente impossível, a não ser que os talibãs tomem conta de Teerão.

Ah! Alguém se lembra como viviam as afegãs quando as tropas americanas, e não só, dominavam Cabul? E sabem como vivem agora?

A guerra entre os EUA/Israel e o Irão, além de muitos outros países que a tropa dos aiatolas decidiu atacar, depois de atacada pela dupla referida, conseguiu um pequeno milagre em Portugal. De repente, não houve mais nascimentos em ambulâncias, as equipas do INEM_funcionam na perfeição e os problemas provocados pelo comboio de tempestades desapareceram. E até Luís Montenegro ganhou algum descanso televisivo com a sombra chamada Pedro Passos Coelho ou o processo Spinumviva.

Mário Dorminski, e o seu Fantasporto, merece o devido reconhecimento do Porto e de todo o país. Há 46 anos que a história se repete, mas na atual edição uma greve dos trabalhadores do Batalha [Centro de Cinema] colocou em causa as exibições do passado sábado, fazendo com que alguns convidados não tenham podido ver os seus filmes. Lamentável e revelador do país pequenino que somos. São greves destas que mostram que alguma coisa tem que mudar...

Mais sete polícias foram detidos na ‘operação esquadra do Rato’, em que dois outros agentes já estavam detidos preventivamente. A PSP, que lidera a investigação, acusa esses nove agentes de «eventual prática de diversos crimes, designadamente, tortura grave, violação, abuso de poder e ofensas à integridade física qualificadas». Faz bem a PSP em não dar tréguas a monstros nas suas fileiras.

Fez ontem (sexta-feira) um ano que morreu José António Saraiva, o maior livre pensador que conheci, mesmo não estando de acordo em alguns assuntos. Faz muita falta ao jornalismo, e a mim. Saudades também dos nossos jantares na Trindade e no Snob e de irmos buscar o jornal às gráficas depois do fecho. E das três ou quatro vezes que o levei ao Alcântara-Mar, ficando fascinado com a fauna de então. O Zé António chegou mesmo a ter um cartão da discoteca, num tempo em que a liberdade era bem mais forte do que hoje...


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