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Delegamos a vida ao algoritmo?

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03.03.2026

Há uma frase nova a circular com a naturalidade de quem sempre existiu: «O Chat disse que…». Não é uma opinião, é uma citação que nos liberta da responsabilidade de pensar e de sustentar a ideia sem muletas. A autoridade saiu do professor, do médico ou do jornal e foi parar ao nosso bolso, junto às chaves e ao talão de estacionamento.

Segundo o Eurostat, cerca de um terço das pessoas na União Europeia, entre os 16 e os 74 anos, usou, em 2025, ferramentas de inteligência artificial generativa. E isso nota-se no quotidiano. Passámos a entregar ao chatbot pequenas tarefas que eram, até ontem, da nossa responsabilidade. Ele redige a mensagem ‘perfeita’ para a app de encontros, faz a versão mais diplomática para responder aos pais e ainda sugere o que vestir, com a serenidade de quem não tem a mãe a perguntar ‘vais assim?’.

O chat de IA deixou de ser uma ferramenta e é, agora, um árbitro. E isto acontece porque pensar e decidir dão trabalho. Decidir é escolher e, como tal, arriscar errar. 

Noreena Hertz, economista e professora universitária, descreve um fenómeno que, enquanto pai, acompanho com preocupação: os jovens têm medo de errar quando têm de decidir, mas acreditam que a IA acerta sempre. O problema não é pedir ajuda, mas sim trocar as experiências pessoais, com erros e acertos, pela terceirização das próprias vidas. Se não praticarem agora, comunicando, errando, lidando com emoções, o que ficará para a saúde mental e para os relacionamentos destes jovens, quando tiverem de ser eles a responder?

Há aqui uma ironia técnica. A IA responde com uma fluência que parece não admitir contraditório, porém, por trás daquele tom seguro não há um sábio de biblioteca. Há um sistema que escolhe, que tem padrões, estrutura e memória, mas que não distingue o facto do palpite. Às vezes acerta, outras inventa, na certeza de que o faz sempre com confiança.

E isto tem consequências. Quando uma sociedade transforma o pensamento crítico num extra, torna-se vulnerável. O que começa como uma ferramenta, torna-se uma infraestrutura essencial, mudando a nossa vida. Uns adaptam-se, outros desaparecem e, no meio, há um período socialmente perigoso, porque a tecnologia é rápida, mas as pessoas têm rendas, filhos e contas para pagar.

Então, o que fazer sem cair no moralismo do ‘desliguem o telemóvel’? Admitir o óbvio: a IA é útil e veio para ficar. A discussão não é ‘sim ou não’. É onde, com que travões. Há coisas que podemos delegar sem dramas (rascunhos, organização), mas há outras de que não podemos abdicar: decisões com impacto em pessoas, em oportunidades ou em direitos fundamentais.

É aqui que entra o EU AI Act, uma das primeiras e mais abrangentes legislações do mundo sobre inteligência artificial, adotada pela União Europeia para garantir que a IA não se transforme num poder sem dono, daqueles que decidem muito e explicam pouco. O regulamento está a ser aplicado por etapas, desde 2 de fevereiro de 2025, mas o mais importante não é decorar datas – é perceber a lógica.

O AI Act não quer proibir a IA de escrever poemas ou e-mails diplomáticos. Quer evitar que ela se transforme num ‘árbitro invisível’ sobre a vida de terceiros, sem responsabilidade humana. E exige coisas pouco românticas e muito úteis, nomeadamente instruções claras sobre limites e riscos, com supervisão humana competente. Ou seja, acaba a era do ‘foi o algoritmo’, dito com ar inocente, como se o algoritmo tivesse entrado sozinho no escritório.

A IA pode ajudar, mas não substitui a responsabilidade humana. Pode sugerir, mas alguém tem de responder por ela. Gosto de imaginar o AI Act como um travão de mão europeu, pouco glamoroso, ligeiramente burocrático, mas útil quando a descida é íngreme. Não vai impedir que usemos a IA no dia-a-dia, mas tentará garantir que, quando a IA ameaçar empregos, créditos e direitos, não se faz de conta que ‘foi o algoritmo. E isso, para já, é um progresso.

Consultor da Inside Building e Sócio da plataforma de serviços domésticos YourHero


© SOL