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A vitória da mentira

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16.03.2026

Pela primeira vez em duas décadas, o Palácio de Belém volta a ter como inquilino um socialista e logo numa época em que dois terços dos portugueses votam à direita!

António José Seguro deve a sua eleição a dois principais elementos, a sorte e a mentira.

Sorte, porque ao contrário do que foi regra durante praticamente todas as eleições presidenciais, não teve que disputar o sufrágio com nenhum outro candidato da sua área política.

Além de mais, beneficiou do facto de a extrema-esquerda estar hoje reduzida à sua máxima insignificância, sem praticamente nenhum peso eleitoral, razão pela qual não lhe fez sombra na hora da decisão eleitoral.

Sorte também, atendendo a que o espaço à sua direita, contrariando o que até então tinha sido prática, se apresentou fragmentado, com várias candidaturas, mas sem que de nenhuma delas sobressaísse um candidato suficientemente carismático e de méritos reconhecidos que conseguisse congregar à sua volta uma avalanche de apoio suficientemente ganhadora.

E foi graças a este factor sorte que chegou à segunda volta e tendo como oponente o único adversário que conseguiu reunir, nas urnas, a totalidade da base de apoio do partido que o sustenta, mas igualmente o único que não está ainda em condições de atrair para o seu campo votantes provenientes de outras formações partidárias, que não a sua.

E é aqui que entra o segundo elemento que esteve na base da vitória de Seguro, a mentira!

Criou-se a narrativa de que uma eventual vitória de André Ventura colocaria em perigo a democracia e em causa as liberdades individuais, deixando-se passar a ideia de que esse hipotético cenário mais não seria do que o regresso a um passado extinto com o derrube do Estado Novo.

Semanas a fio, a imprensa, escrita e falada, socorrendo-se dos habituais comentadores fiéis ao regime, de políticos no activo e retirados, de economistas e de gestores pendurados nas benesses do Estado, e de toda uma série de gente conhecida dos vários sectores da sociedade, em particular do meio artístico, não se cansou de espalhar a mentira de que Ventura não passa de um escroque ao serviço da extrema-direita e com ligações aos movimentos neo-nazis, e tendo como objectivo primário o de matar a democracia.

De todos os quadrantes políticos se fizeram ouvir vozes a apelar ao voto em Seguro, a esmagadora maioria não por se identificarem com o seu pensamento, nem tão pouco por reconhecerem nele qualidades inatas para o exercício da mais alta magistratura da Nação, mas somente por se ter tornado um desígnio nacional a derrota de Ventura, criando-se em torno da candidatura socialista uma verdadeira união nacional, de fazer inveja à que imperou até à abrilada.

Da extrema-esquerda à direita envergonhada não houve quem faltasse à chamada para vir a terreiro em apoio a Seguro, incluindo, pasme-se, todos os anteriores presidentes do CDS, com uma única honrosa excepção, a de Manuel Monteiro, que teve o bom-senso de se remeter ao silêncio.

Assim que se deu início à campanha eleitoral da segunda volta, assistiu-se ao inimaginável com a Polícia do regime a desencadear uma operação de combate a um suposto grupo criminoso rotulado de neo-nazi, procedendo-se à detenção de diversos indivíduos identificados como terroristas e passando-se para a imprensa a informação de que entre eles estariam três militantes do Chega.

O objectivo foi claro, o de associar a candidatura de Ventura à extrema-direita internacional e com ramificações a grupos terroristas, condicionando, dessa forma, o voto dos mais assustadiços, convencendo-os de o que estaria em causa seria a salvação da democracia!

O mandante desse espectáculo acabou por ser recentemente recompensado pelos altos serviços prestados ao regime, sendo-lhe oferecida a pasta da administração interna.

Os favores, nesta democracia, têm um preço e são devidamente pagos!

O desplante da campanha estatal contra um candidato presidencial legítimo foi tal que até no próprio dia das eleições, e violando grosseiramente a lei eleitoral vigente, uma sofrível apresentadora do canal público de televisão, paga a peso de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, e que se aproveita do palco que generosamente lhe foi oferecido para promover a toda a hora a agenda woke, veio para as redes sociais a apelar ao voto no candidato socialista, recorrendo ao tal argumento da preservação da democracia.

A diabolização de Ventura conduziu aos resultados pretendidos, levando a que o receio e o medo se apoderassem das mentes de quem nunca votou à esquerda, mas que agora entendeu por bem depositar o seu voto num candidato socialista.

Mas, sejamos realistas e honestos, caso Ventura tivesse sido eleito presidente desta república, naturalmente que a democracia jamais teria os dias contados por via desse destino.

E por dois simples motivos:

O primeiro, é que o Chega, ao contrário do que a propaganda do regime insiste em vincular, não é um partido extremista, nem tão pouco saudosista do poder derrubado em Abril de 74.

Certamente que 99% dos alarmistas que acreditam no radicalismo daquele partido nunca leram o seu programa. Se o tivessem feito, facilmente teriam chegado à conclusão de que a sua doutrina em praticamente nada se distingue da apregoada pelos outros partidos que ocupam o espaço político mais à direita, estando, obviamente, comprometido com a preservação dos princípios orientadores da democracia pluripartidária e das liberdades individuais e colectivas.

Precisamente o contrário do partido comunista, que no seu programa defende a ditadura do proletariado, e do bloco de esquerda, que se inspira no trokstismo, sendo que ambas essas formações querem ver Portugal fora da OTAN e da União Europeia, causas que não foram impeditivas para o PS de Costa se ter entendido com eles na governação do País.

Em segundo lugar, os poderes constitucionais do presidente da república são suficientemente limitativas para que quem exerça o cargo possa exorbitar das suas funções, estando devidamente manietado para que se possa imiscuir em assuntos para além das suas competências legais.

Seguro conseguiu reunir em torno de si, na segunda volta eleitoral, uma falange de apoio típica dos estados autoritários e ditatoriais, nos quais os candidatos do sistema juntam quase a unanimidade de quem se digna votar.

A áurea de moderado com que o brindaram esteve na base dessa proeza, a qual somente foi alcançada porque se branqueou o seu pensamento político, que é intrinsecamente socialista.

Não foi por acaso que a primeira visita que fez, no próprio dia em que tomou posse, foi à universidade do PS, para aí se exibir perante os futuros quadros do partido a que ainda pertence e do qual jamais se vai desligar!

Soares também era moderado, tornando-se, com o tempo, um feroz opositor da esquerda radical, apesar de dever ao partido comunista o ter conquistado a presidência, mas foi fruto da sua incapacidade como governante que tivemos a primeira visita do FMI.

Gueterres, de quem Seguro foi moço de recados e depois ministro, era igualmente moderado, e até católico praticante, mas deixou o País num pântano, segundo as suas próprias palavras.

Sócrates, de quem Seguro foi um convicto apoiante, veio da ala direita do PS e os maiores confrontos que teve foi com os partidos à sua esquerda, mas os seus devaneios levaram-nos à perda parcial da soberania durante vários anos.

Em sentido oposto ao de Midas, que transformava em ouro tudo em que tocava, os socialistas, moderados ou radicais, destroem qualquer tecido robusto em que mexam.

E esta é a triste sina de Portugal neste último meio século de perdição, e de termos tido ao leme socialistas, geralmente moderados, mas que nos têm afundado e nos conduzido para a cauda da Europa.

Com Seguro não vem lá o socialismo, como alguns receosos têm vaticinado, mas vem, sem dúvida, a instabilidade a incerteza, imagem de marca dos herdeiros de Marx, clube a que ele pertence.

É só uma questão de tempo!


© SOL