O que é que a baiana tem?
Fui ao teatro Politeama ver Carmen Miranda - O Grande Musical, do nosso amigo Filipe La Féria. Faz sentido lembrar a maior cantora do Brasil (da época) em qualquer altura do ano. Mas como estamos em fevereiro, mês do seu nascimento, vale a pena recordarmos quem foi esta mulher.
Esta transmontana nasceu a 9 de fevereiro de 1909 em Marco de Canaveses. Ao longo da sua curta carreira (morreu aos 46 anos) não voltou a Portugal. Nem para visitar o país nem para atuar.
Mesmo tendo saído de Portugal com menos de um ano de idade, todos gostam de chamá-la de ‘a brasileira mais portuguesa do mundo’.
Este musical do Filipe é fundamental para todos conhecerem a vida e obra desta ‘mulher furacão’! Durante duas horas e meia, somos invadidos por um banho de luz, cor e música. Não fosse este um espetáculo do La Féria, um homem sempre arrojado e avesso ao cinzento que Portugal teimou em vestir durante demasiado tempo.
Um ritmo estonteante, de entra-e-sai permanente, que faz sombra a muita aula de zumba. É difícil permanecermos sentados nas cadeiras do teatro com este rimo frenético. Além do talento a que já nos habituou em palco, nesta e noutras peças, desta vez João Frizza volta a surpreender-nos, pois o deslumbrante guarda-roupa também é da sua responsabilidade.
A escolha de Paula Sá para protagonista demonstra que o Filipe ‘não brinca em serviço’. Escolha melhor não podia haver. A Paula nasceu para interpretar esta Carmen. É como se não estivesse a representar e estivéssemos a ver a própria Carmen, no Palco do Politeama.
Noémia Costa interpreta a mãe da vedeta. Um papel dificilíssimo interpretado com grande competência. Até consegue o prodígio, nada fácil, de falar brasileiro com sotaque português, imagina.
E mais não conto! Quando vieres a Lisboa, este neto que tanto te ama leva-te a ver esta celebração, contada como só Filipe La Féria sabe fazer.
Como sabes, o nosso amigo Filipe La Féria é único. Dá tudo em cada novo trabalho. E, curiosamente, consegue sempre superar-se e surpreender-nos. Vive para o Teatro!
Efetivamente, Carmen Miranda nunca voltou a Portugal! Ainda assim, muito se escreveu sobre ela. Imagina um país cinzento a ver uma mulher como ela, com pouca roupa e com bananas na cabeça… uma escandaleira!
Tornou-se um fenómeno no Brasil (e não só). Foi lá que construiu a carreira - mas nunca deixou de dizer que era portuguesa de nascimento.
Nos anos 1930 virou a maior estrela da música brasileira. Canções como: “O Que É Que a Baiana Tem?‘’ ; ‘Tico-Tico no Fubá’; ‘Mamãe Eu Quero’; ‘South American Way’ tornaram-se sucessos enormes. Não havia baile onde não dançássemos, freneticamente, estas e outras canções.
Ela tinha aquela energia única - pequena de estatura, mas gigante em presença. Os turbantes com frutas, as plataformas altíssimas, as pulseiras até ao cotovelo… ninguém era como ela, muito menos num país como o nosso.
Em 1939, foi para os Estados Unidos e conquistou a Broadway e Hollywood. Tornou-se a artista mais bem paga do mundo numa certa altura!
Mas porque é que ela nunca voltou? Ela tinha planos, tinha saudades - dizia muitas vezes que queria regressar - mas a vida foi sempre corrida, contratos atrás de contratos, e a saúde começou a fraquejar.
Nunca voltou fisicamente a Portugal… mas também nunca deixou de ser portuguesa no coração. Palpitou nos corações de muitos homens, não só em Portugal, como no mundo inteiro. E o nome dela ficou escrito na história como uma das primeiras artistas verdadeiramente globais do século XX.
Para uma geração mais antiga, ela era um símbolo de sucesso além-mar. Para o mundo, tornou-se um ícone eterno da cultura luso-brasileira.
Assim que for a Lisboa iremos ver o musical e beijocar o Filipe La Féria.
