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Salgado sem memória

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03.06.2026

As organizações fingem que não se lembram. Fazem rebrandings sem nomear o que aconteceu, mudam de liderança para apagar decisões coletivas ou publicam relatórios que omitem os incidentes mais graves. O mercado, esse, não tem essa prerrogativa.

A Justiça condenou Ricardo Salgado a treze anos de prisão e suspendeu a pena no mesmo ato, porque uma doença neurodegenerativa o impede de compreender o que significa estar condenado – e há aqui, antes de tudo o resto, uma decisão legítima sobre um homem doente, que não me cabe discutir. O que me interessa é o que paira depois de fechado o processo, quase como um efeito secundário involuntário: a ideia de que não se responsabiliza quem não tem consciência do que fez. Porque as organizações, ao contrário de Salgado, têm consciência plena – e mesmo assim comportam-se, com frequência, como se não se lembrassem.

“Virar a página” é a expressão que todos usamos e ninguém examina. Vem sempre depois de algo correr mal – a crise, o produto que falhou, o despedimento coletivo, a parceria que acabou em tribunal, e traduz-se quase sempre na mesma coreografia: muda-se a marca sem explicar porquê, troca-se de liderança como quem troca de testemunha abonatória,........

© SOL