Será que o diabo, afinal, vem aí?
Portugal desaproveitou os últimos dez anos para se preparar para o que aí vem, ou melhor, para o que estamos já a viver.
Depois de oito anos de maioria parlamentar de esquerda, com os governos de pura gestão política de crises, mesmo com uma maioria absoluta, de António Costa, estes dois últimos anos de maioria de direita na Assembleia da República e de governos de AD liderados por Luís Montenegro não mudaram estruturalmente coisa alguma.
Ou seja, Pedro Passos Coelho tem toda a razão quando vem falar da necessidade de reformas e criticar a inação de governos e governantes que se limitam a controlar danos e a deitar dinheiro para cima dos problemas, sem verdadeiramente os atalharem nem, muito menos, terem um desígnio e um rumo para o país.
Quem o soube interpretar como poucos foi Sérgio Sousa Pinto, antigo eurodeputado socialista e, agora, um sempre inconformado comentador que tem a enorme vantagem de pensar pela sua cabeça sem estar obliterado por agendas partidárias ou de seguidismo militante.
Assumindo admiração, respeito e até amizade por Passos Coelho – com quem está a coordenar um trabalho sobre reformas estruturais e bloqueios da economia portuguesa encomendado pela Associação Comercial do Norte, como o Público veio lembrar no dia seguinte –, Sousa Pinto elogiou a quebra do silêncio pelo antigo primeiro-ministro e líder do PSD em defesa de uma ideia, a sua ideia, para o país.
Mais, enalteceu o seu patriotismo e interesse nas questões públicas, sublinhando que se distingue de «muita gente que pulula na vida pública» pelo seu desprendimento em relação ao poder e ao exercício do poder pelo poder, acrescentando mesmo as razões pelas quais Pedro Passos Coelho não terá querido ser candidato a Presidente da República: porque considera que essa «não é a posição institucional que lhe permitiria operar as transformações que ele, bem ou mal, considera necessárias».
Um raríssimo, mas justo elogio que, na verdade, diz tanto do elogiado como do seu autor.
Sérgio Sousa Pinto preocupou-se com o essencial das intervenções de Pedro Passos Coelho enquanto a esmagadora maioria dos protagonistas da nossa politiquice antes se focaram no acessório: a vontade de Passos Coelho regressar à política ativa e à liderança do PSD ou de uma frente de direita.
Voltando a citar Sérgio Sousa Pinto, isso, por enquanto e até ver, muito pouco importa, já que nem tão cedo se perspetivam eleições e o Governo tem mais é que governar.
Agora, era só o que faltava que quem com uma ideia e um plano de reformas para o país tivesse de inibir-se de defender aquilo em que acredita ou abdicar dos seus mais elementares direitos políticos.
Ora, disse Passos Coelho que, ‘se voltar, não será pelas melhores razões’. Que é como quem diz, só voltará se Luís Montenegro falhar na sua governação ou, por qualquer outro motivo ou imponderável, se afastar ou for afastado do poder.
E diz-nos a História que em política nada é impossível e o que é verdade hoje pode bem deixar de o ser amanhã e vice-versa – de governos minoritários cumprirem legislaturas a executivos de maioria absoluta não resistirem a meio mandato.
Sobretudo quando a conjuntura internacional em nada contribui para a saúde económica e financeira e para a estabilidade internas.
É aí que a porca torce o rabo.
Como se já não bastasse a guerra na Ucrânia, a precipitação dos bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel ao Irão e a reação do regime dos ayatollahs vieram agravar muito significativamente a ameaça sobre a economia global, com sério risco de uma crise energética ou choque petrolífero com todas as suas consequências.
E com a agravante interna de mal termos ainda acabado de sair de um comboio de tempestades e de cheias que devastaram o país.
Acresce que, fruto das benesses indissociáveis do recente ciclo de eleições, os cofres do Estado se foram esvaziando.
Ao ponto de se ter registado em 2025 um novo recorde de cativações. Não era Joaquim Miranda Sarmento que apontava o dedo a Mário Centeno e questionava se ainda haveria alguém que caísse nessa conversa de pôr investimento público apenas no papel para depois apresentar contas certas em Bruxelas?
E as contas resistirão certas, mesmo com cativações?
Ou será desta que o diabo está para chegar?
Passos terá razão quando diz que um seu regresso pode não ser pelas melhores razões.
Mas esperemos que não. Até porque as reformas que se impõem não se fazem com os cofres vazios.
E a jogada de Luís Montenegro de antecipar diretas e lançar o repto a Passos para um duelo já em maio foi um bom tiro tático mas pode sair-lhe pela culatra.
mario.ramires@nascerdosol.pt
