Para onde vais tu, Lisboa?
Todas as cidades necessitam da sua própria evolução. Não há espaço para ficar parado e ver o mundo passar, disso acho que estaremos todos de acordo. Tendo como premissa esse principio, de que estamos em constante mudança, precisamos depois de trabalhar essa transformação para que ela tenha em vista as pessoas, os que estão e os que hão de vir, aumentando a qualidade de vida e o bem estar. Se indexarmos esse principio seja a um produto ou a um espaço como o sitio onde vivemos, seja em forma de marca ou simplesmente da nossa casa, o caminho terá forçosamente de ser o de vivermos todos melhor. E o vivermos melhor encerra em si vários pressupostos, alguns deles que colidem uns com os outros se não soubermos ter a perspicácia de os utilizar e escolher com conta, peso e medida. É por isso que gosto tanto da palavra “balance” em inglês ou equilíbrio na nossa língua materna. Para melhorarmos os nossos dias é importante termos capacidade de ganhar o suficiente para garantir essa estabilidade mas o dinheiro em si pode, em diversas situações, ser inimigo da felicidade se não for bem utilizado.
Nesse sentido Lisboa e outras grandes cidades europeias não têm sabido percorrer da melhor forma esse caminho. Sempre adorei viver aqui e fui um defensor acérrimo da qualidade e diversidade que a nossa capital foi construindo, em cima de valores e tradições que se misturavam bem com um sentido cosmopolita que se foi desenvolvendo aos poucos, sem exageros ou excessos. O problema é que com o turismo desenfreado alteraram-se estratégias e corrompeu-se esse binómio que apontava ao desenvolvimento sem esquecer os que cá vivem e o que nos tornou tão apetecíveis. Fomos abrindo a porta a caixotes de pessoas sem termos criado condições primárias para que elas pudessem vir, tornámo-nos demasiado ávidos em querer mais e mais e mais e foram-se descurando aspetos fundamentais do que deveriam ser os pontos de partida para o crescimento. Transportes, condições de segurança, processos de deslocação ou regras de convivência trouxeram-nos para um momento em que é preciso parar para pensar e pensar se o caminho é mesmo por aqui.
Infelizmente Lisboa é hoje em dia uma cidade em que já não há horas de ponta mas dias de ponta, onde os buracos nas estradas são mais do que muitos, os transportes não são adequados, cheira mal em cada canto e onde o lixo se amontoa, guetos dentro da cidade onde já não é assim tão seguro andar a pé e lojas incaracterísticas porta sim porta também que substituem os produtos locais e os estabelecimentos históricos. A minha cidade tem crescido mal e pouco pensada para quem cá vive, sujeita a investimentos externos e à clandestinidade, autista perante os que cá vivem, virada para o negócio e não para os seus cidadãos, como se um parque de diversões se tratasse e em que nos transformámos todos, figurantes de segunda categoria. O meu bairro de Campo de Ourique entrou agora em obras. Primeiro a requalificação da Rua Ferreira Borges que atravessa o bairro, depois as obras do metro.
Está tudo certo em melhorar mas os dois anos que são apontados para o fim da requalificação não tiveram em conta a qualidade de vida de quem cá vive. Os moradores foram mal informados, as ruas estão um caos e não foram acauteladas condições que pudessem ajudar a mitigar um pouco os constrangimentos. Para ajudar à festa, foram subtraídos inúmeros lugares de estacionamento e a EMEL, parece ter aproveitado a oportunidade para estar mais atenta do que nunca, para carregar nos moradores. Evoluir é também pensar no processo de evolução para que os sacrifícios à conta da evolução não sejam excessivos ao ponto de nos fazer duvidar. Porque quem vive neste tempo também precisa de o viver bem e porque o presente é tão importante como o futuro. Não te esqueças de nós, minha querida Lisboa.
Não aparece nos guias das melhores tascas, não está na moda nem por lá alguma vez vi algum influencer a tirar fotos. Não é um espaço chique nem instagramável mas é dos sítios onde melhor se come comida tradicional portuguesa. Tem cerca de 12 lugares na barra e uma mesa que senta duas pessoas. No “Guardanapo”, na Rua Padre António Vieira número 4, tudo é bom. Da simpatia do serviço aos sabores do antigamente. Dos pratos do dia às sobremesas. Vale a pena experimentar para quem gosta de comida a sério.
Uma música para dançar no fim de semana:
Vision Blurred (Extended Mix) - Kaskade, Cid, Anabel Englund
