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Uma visita à Hatchards

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26.02.2026

Acabamos de deixar a Fortnum and Mason, a famosa mercearia de Piccadilly, abastecida com as iguarias mais finas. Na cave havia presunto pata negra, bifes Wagyu e caviar a preço de ouro, mas o que mais me impressionou foram umas cenourinhas espantosas que só me abstive de fotografar para não parecer demasiado rústico.

Dirigimo-nos agora para New Bond Street, onde o luxo assume formas ainda mais extravagantes. Mas sou irresistivelmente atraído para a entrada de uma livraria com uma fachada de madeira pintada de um tom escuro.

Logo à entrada há um expositor onde se destaca o álbum Franco Maria Ricci – Um labirinto de beleza. É um livro magnífico, uma recolha do melhor que se publicou na revista FMR, cujo título alude ao fascínio do editor e colecionador italiano por labirintos, que lhe foi incutido por Jorge Luis Borges e se materializou num labirinto de bambus que Ricci mandou plantar na sua casa em Fontanellatto, perto de Parma. Um livro magnífico, repito, mas demasiado pesado para quem anda em viagem.

Olho em meu redor e vejo uma estante dedicada a Winston Churchill – um dos clubes a que o grande estadista pertencia, o exclusivo Carlton Club, não ficava muito longe daqui – e uma outra dedicada à história de Londres.

Uma senhora que entrou pouco depois de mim pede ajuda a um funcionário. Procura um livro para oferecer a um amigo que se interessa pela Segunda Guerra Mundial, mas há uma estante enorme por onde escolher. O livreiro explica-lhe que os lançamentos recentes são os livros de capa dura (hardcover) e que é menos provável que o amigo tenha esses. Finalmente compreendo a lógica do hardcover e do paperback (capa mole). Pensava que se tratava somente de uma versão mais cuidada ou mais popular do mesmo livro. Afinal, os hardcover são os lançamentos recentes e os outros as edições posteriores, mais acessíveis, de livros que ‘vingaram’.

Numa mesa há vários títulos tentadores, estes em formato amigo do viajante. Osugestivo Inverno – A história de uma estação; Um ano na vida de Constable; Modernistas e Rebeldes – Bacon, Freud, Hockney e os pintores de Londres. Lembro-me que o restaurante favorito do pintor Lucian Freud, o The Wolseley, fica a cem ou duzentos metros daqui. Depois há calhamaços menos portáteis como O mar e a civilização, apresentado como «a mais abrangente história marítima alguma vez escrita», e A Transformação do mundo – uma história global do século XIX.

A escolha é difícil, acabo por optar por pequenos formatos. Pensamentos imortais, um volume de ensaios sobre o período final (ou estilo tardio) de nove grandes artistas; Paris em Ruínas – o Cerco, a Comuna e o nascimento do Impressionismo; e uma elogiadíssima biografia de Paul Gauguin, assinada por Sue Prideaux, autora de uma empolgante biografia do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Perto da caixa há uma secção com livros antigos e raros. Enquanto espero a minha vez para pagar, pego numa 1.ª edição de um volume de contos de Graham Greene: 350 libras.

Os meus três livros ficam a um décimo disso – mesmo nesta zona elegante de Londres os livros continuam a ser um bem de acesso democrático. O vendedor pergunta-me se quero um saco. Sim, quero. E só aí fico a saber que a livraria se chama Hatchards. Por baixo do nome, aparece a data de 1792 – o que significa, venho a descobrir mais tarde, que se trata da livraria mais antiga de Inglaterra.

Não será muito ousado imaginar Churchill vindo do alfaiate em Savile Row, a transpor a entrada de madeira escura e selecionar uns quantos livros antes de se dirigir para o Carlton Club. Ou o pintor Lucian Freud a parar aqui a caminho de um almoço na mesa de canto do Wolseley onde, no dia da sua morte, foi colocada uma toalha preta e uma vela solitária.

Há quinze dias escrevi neste espaço sobre os atributos da livraria ideal. A Hatchards de Piccadilly tem várias das características que enumerei. Mas falta-lhe uma essencial: não tem livros em português nem fica em Portugal.


© SOL