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Histórias em troca de boleias

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05.03.2026

Despedimo-nos do Miguel Peixe numa pequena capela de telhado inclinado, muito perto da bomba de gasolina onde tantas vezes eu o deixei ao final de um dia de trabalho. O padre falou sobre a existência de coisas que não conseguimos ver nem agarrar; afirmou que esta vida é apenas uma passagem; e que a morte não é o fim, mas o início da verdadeira vida. No final, uma senhora leu no seu telemóvel a oração de Santo Agostinho. Começa assim: «A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho».

Tínhamos falado ao telefone na véspera de Natal, liguei-lhe para saber como estava e para desejar Boas Festas. Antes, em novembro, visitara-o no hospital São Francisco Xavier, onde me disse que estava a ser muito bem cuidado. Cheguei por volta das quatro da tarde, encontrei-o sentado em cima da cama, com as pernas cruzadas. Quando comentei que era «uma postura muito zen», explicou-me que tinha mudado de posição por causa das dores. Conversámos durante um bom bocado, ele estava preocupado mas tentava manter-se positivo. «Fiz alguns disparates», reconheceu. Foi a última vez que o vi.

Como designer gráfico, o Miguel tinha uma larga experiência e competência, adquiridas sobretudo nos muitos anos que trabalhou no Público. Se por acaso algum jornalista dava mostras de não valorizar o seu trabalho, ele avisava: «Sabes que eu tanto posso paginar o teu texto de uma maneira que as pessoas o vão querer ler como de maneira a ninguém o querer ler…». Na sua forma de trabalhar, lembrava um pouco um alfaiate, tentando fazer uma paginação à medida de cada artigo. E quando era preciso meter mais texto, o que nos acontece com frequência, ele tinha a arte de o fazer caber quase sem se notar a diferença.

Um dia descobrimos que ele morava não muito longe de minha casa e passei a dar-lhe boleia depois de fecharmos o jornal. Talvez como forma de agradecimento, ao longo da meia hora que durava a viagem ele entretinha-me com histórias do Público, da sua infância em Moçambique e da juventude aventurosa na linha do Estoril. Algumas eram tão engraçadas que eu ficava com pena de não ter ali um gravador à mão. Ao chegar a casa, sentava-me um bocadinho a registá-las antes que começassem a escapar-me da memória.

Lembro-me, por exemplo, do caso do amigo cujo pai era dono de um supermercado em Cabinda, onde os clientes tinham o hábito de pagar em diamantes; ou de como ele e um grupo das motas iam a Tires pôr gasolina para avião no depósito das suas ‘LC’, para depois fazerem corridas no autódromo do Estoril.

À medida que íamos ficando mais próximos, o Miguel falava-me também sobre a vida em casa, as pequenas dificuldades domésticas, os filhos e os gatos. Era um apaixonado por animais. Em tempos tivera um hotel para cães, e possuía um conhecimento enciclopédico sobre criação, raças e comportamentos caninos; mas curiosamente também adorava gatos. Uma vez, não consegui desviar-me de um gatinho que se atravessou na autoestrada e ele ficou visivelmente condoído.

Mas a melhor história era talvez a do magrebino que ele conhecera em Genebra – numa época em que no verão ia apanhar fruta para uma quinta na região do Valais. Um dia, o tipo diz-lhe: ‘Le Portugais, agora vou-te mostrar como é que se ganha dinheiro’. Foi a um canteiro, cortou uma pequena talhada de terra escura e meteu-a dentro de um saquinho. Quando viu passar um jovem suíço de cabelo comprido, perguntou-lhe: ‘Queres haxixe?’. O jovem comprou-lhe o produto sem hesitar. Nessa noite, o Miguel e o seu amigo magrebino banquetearam-se com um belo frango no espeto, enquanto algures um jovem suíço apanhava uma ‘pedrada’ a fumar um pedaço de terra retirado de um canteiro público.

Perdoem-me se me desviei um pouco do âmbito habitual desta rubrica. Mas lembro-me muitas vezes da frase do crítico literário Angelo Rinaldi que surge no verso da minha edição de Se Isto é um Homem, de Primo Levi. «Se a literatura não é escrita para lembrar os mortos aos vivos, não passa de futilidade». Não que eu tenha a pretensão de fazer literatura, evidentemente.


© SOL