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Diálogo contra um 'cancro'

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09.03.2026

Quando eu e Fernando Ventura, frade franciscano capuchinho, aceitamos em 2022 o desafio do editor Rui Couceiro, o tempo da reflexão era ritmado ainda pelo trauma da pandemia. Sabíamos que havia o risco de um foco condicionado, mas, ainda assim, fomos na escrita para aquela que seria a última parte de uma trilogia editorial em conversa sintonizada, com sal e pimenta. Voltamos a viajar pelo mundo e pelo Homem, com tópicos que rasgam vestes religiosas e abrem espaços de procura. Sempre no gerúndio, porque nada está totalmente acabado. Em contexto de fé, nem mesmo a vida como a conhecemos. Todos nós somos sendo, assim intitulamos o consequente livro. Passados quatro anos, para ensaiar uma revisão de matéria, voltei às nossas páginas. Das muitas abordagens, com o já verificável legado do papa Francisco, uma se destacou: «a crise do diálogo». Está atual. É preciso «higienizar» as relações para retomar o genuíno sentido do diálogo, «desmontar clivagens, as tribos em que nos querem encerrar», como roupa em gavetas, «em que nos deixamos confinar por comodismo». Aos vermos emergir ‘sonhos ditatoriais’, não podemos deixar de ‘trocar ideias’, respeitar ideias fugindo da mera replicação de opiniões, tantas vezes vagas e infundadas, que se apresentam como verdades absolutas. Da família à política, no local de trabalho ou na mesa do café, temos relações pautadas sobretudo por opiniões. «Opina-se sobre tudo, toda a gente tem opiniões sobre tudo», mas uma opinião, seja pelo conteúdo ou pelo tom, pode não passar de uma bolha, de um «quisto fechado em si mesmo, que não faz mais do que crescer e ocupar mais e mais espaço». A este propósito, lembro a analogia de Sobrinho Simões com as células cancerígenas. O cancro é tão bem-sucedido que «na sede de sobreviver e crescer, acaba frequentemente por nos matar e por se matar». Assim, vamos mastigando opiniões na utilização abusiva do verbo ‘achar’. Na ânsia de vincar uma (o)posição, promove-se a beligerância verbal sem interseção de ideias. Uma ideia, para ser levada a sério, «porque é enquanto o é, procura outras ideias para crescer, outros horizontes de desenvolvimento, procura até a companhia dos ‘diferentes’, do ‘outro’», sem os quais não se aprofunda e acaba por enquistar. É dramático quando uma ideia não gera um diálogo. Precisamos do outro, de um ‘tu’ para construir um ‘nós’ e fazer o exercício da razão, da análise. No contexto do diálogo inter-religioso, Pannikar fez um upgrade do conceito, chamou-lhe ‘duálogo’, a capacidade de entender a minha posição ao mesmo nível da posição do outro e, assim, ir ao encontro, sem medo. Na mesma linha, Francisco propôs, como método, o discernimento ‘sinodal’, em que todos se escutam para decidir. 

Como diz frei Fernando, «estamos fartos de denunciadores», fazem falta agentes do diálogo. (Con)vivemos com a agressividade verbal, real ou em rede anónima, nos atos e nas palavras, confundindo o legítimo direito à opinião com julgamento, caluniando e mentindo em neoplasia social. Era Carl Jung que dizia qualquer coisa como «pensar é difícil, por isso a maioria prefere julgar». Recupere-se a educação para a cidadania e para o diálogo proposta por Nussbaum, que não se limita aos valores de uma cómoda proximidade, mas alarga o sentido de pertença a uma compreensão global das diferenças. Não é a genética ou uma bactéria que determinam a bondade ou a maldade, é a educação e a circunstância, dimensões com a nossa intervenção.


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